Abrir as janelas todas e deixar o ar correr veloz pela casa. Papéis a rodopiar no ar, portas a bater, pétalas que se soltam das plantas. É tempo de voltar a respirar.
Rei – Acredito, sim, que penses o que dizes agora; mas aquilo que decidimos, não raro violamos. O propósito não passa de servo da memória, de nascer violento mas fraca validade. E que agora, como fruta verde, à árvore se agarra, mas, quando amadurecida, despenca sem chacoalho. Imprescindível é que não nos esqueçamos de nos pagar a nós mesmos o que a nós é devido. Aquilo que a nós mesmos em paixão propomos, a paixão cessando, o propósito está perdido.
Hamlet, Shakespeare
Deus cria as pessoas; o diabo junta.
Já vi a casa assaltada, o carro vezes sem conta, a conta de email idem, o coração também não escapou; mas palavras e expressões é a primeira vez. Bem-haja a falta de imaginação.
Mais de 500 obras literárias estão disponíveis para download gratuito no portal Universia Brasil. Ao todo foram publicados 521 arquivos em formato PDF, que pode ser lido em computadores, tablets e e-readers. As obras são dos mais variados estilos: há desde biografias de cineastas até textos científicos sobre comunicação, passando, claro, por grandes clássicos da literatura.
Nova temporada de insónias agressivas. A noite passada vimos o dia nascer e conseguimos acordar ainda a uma hora matinal decente, o que me obriga a evitar contabilizar o tempo. Digamos apenas que as horas passadas a dormir cabem todas numa mão e sobram dedos. Amigos aconselham mezinhas caseiras e outras de laboratório, mas tenho uma relutância desde sempre aos fármacos. Nunca vi ninguém tomar drogas legais que transpirasse saúde (das outras, as ilegais, vejo muita gente contente e aos pulos) e penso que isso traduz tudo. Uma das coisas que mais resistência sinto é aos supermercados de produtos naturais e afins. Não pelos produtos que são vendidos, mas por quem os adquire. Uma ida às compras ao Celeiro na baixa, o mais antigo e um resistente à voracidade das modas new wave, é uma viagem aos infernos das doenças humanas. Nos corredores passeiam pessoas amareladas quando não são verdes, de cabelos ralos, a tropeçar em olheiras e a arrastar os pés. E não, não é como num hospital, ou pelo menos como nas urgências, onde há emoção, sangue e drama. Ali já estamos na fase do internamento mas por erro clínico. Entramos no supermercado e apanhamos as doenças às compras – a icterícia no auge, o cancro que alastra, o fígado desfeito, a dieta mal amanhada, a depressão crónica; todas a comprar extracto de alho para o sistema imunitário e curcumina para as articulações. Por isso, quando amigos bem intencionados recomendam remédios que não falham eu já sei que recomendam o inferno, e o inferno tem cestinhos de mão onde cabem muito remédios e corredores que cheiram a milho tufado. Hei-de aqui voltar mas agora vou abraçar a almofada a ver se prego uma rasteira às insónias.
Mais vale um amor na mão, que dois a voar.
E eis o momento em que passado cinco dias do acidente percebo que tenho um olho a ficar negro. Amanhã a pergunta que mais devo ouvir é se está tudo bem lá por casa.
O amor nos condena:
demoras
mesmo quando chegas antes.
Porque não é no tempo que eu te espero.
Mia Couto, in 'idades cidades divindades'
Combinei no Nicola por ser um dos meus cafés preferidos. Resistiu ao tempo e mantém a dignidade. Parece-me apropriado. Estou na mesa do costume, duas à direita do
BARBOSA DV BOCAGE 1765 - 1805
à espera com um café à frente do nariz. A caminho do Nicola vi o homem-elefante que agora já tem dois olhos, nariz e boca, mas continua sentado no mesmo degrau. O velhinho que apregoava o apocalipse foi substituído por uma carrinha ambulante com morangos. Deus foi trocado por fruta; o megafone por uma rapariga bonita de avental. Passam dez minutos da hora combinada, o céu está de chumbo. Terei chapéu-de-chuva? Não, ficou em casa para não se estragar. Talvez chegues a escorrer chuva se isto não ficar de feição. O Bocage faz-me companhia enquanto espero. Compreendemos bem as contas um do outro, também teve o Pina Manique a chatear, para além da inquisição, e um ano e meio preso nos calabouços, e nem assim deixou de fazer manguitos ao mundo e contar piadas aqui, aqui onde estou agora a olhar pela janela com o café a arrefecer. E o que chove? Parece noite. Peço outro café para abreviar a espera e viro novamente a ampulheta.
Ter sempre razão pode provir de duas fontes – ser louco e simultaneamente a mais persuasiva das pessoas ao afirmar tal; ou ser a expressão final de um laborioso trabalho. Provar o que se advoga é uma trabalheira – não basta acusar; é preciso observar com atenção o caso, estudar em profundidade o assunto, arranjar provas inequívocas muitas vezes em condições adversas, ser paciente, prever lances muito antes da jogada, e, acima de tudo, ser mais inteligente que os restantes. Mesmo assim, no final nada garante que o julgamento seja ganho, e disso reza a história extensa da minha família, tudo gente do direito, mas sente-se uma grande satisfação poder afirmar no final – tenho toda a razão comigo.
"– Para ela, as palavras resumem-se a meros sons, desprovidas de qualquer sentido ou responsabilidade”; conclusão minha (mais a pensar nas possibilidades formais da coisa do que na sua dimensão moral ou psicológica): “– Essa gaja é uma artista!". Aqui.
Hoje acordei com a chuva, e não sei se por isso ou não, lembrei-me que à quinta-feira de manhã é quando se regista a maior afluência de pessoas na internet (leia-se redes sociais e blogs). Não sei bem o que fazer com esta informação, mas se é quinta-feira recordo este facto. Há dias conversava com um amigo e disse-lhe que pressentia ter comportamentos diferentes consoante a rede onde navegasse e que também não tinha grande justificação para isso, por não depender do meu bom ou mau humor na altura mas da própria rede em si. Foi peremptório a explicar que dependia tudo do tamanho da imagem do avatar, quanto mais pequena a imagem menos identificação temos com o outro, o que justificava o meu quase desprezo pelo Twitter. Também não sei o que fazer com isto, só sei que é quinta-feira e hoje, especificamente hoje, que por acaso é quinta-feira, é um dia muito importante para mim e esta manhã, esta manhã específica, não deveria estar na internet nem a pensar sobre estas coisas.
House #3, Providence, Rhode Island, 1976
(...) Muitas vezes o que vemos é um corpo desintegrado: um par de pernas embutido num armário, braços envoltos numa casca de árvore, o torso nu coberto com papel de parede. Noutras imagens, o seu corpo dissipa-se num rasto de movimento. A sua aparência fantasmagórica evoca a fotografia espírita do século XIX, destinada a provar a existência de vida para além da morte. Muitas leituras críticas da sua obra concluíram que Francesca Woodman usou a fotografia como uma forma de desaparecimento - um prenúncio do seu suicídio. Mas, como escreveu recentemente a revista The Economist, isso é esquecer a energia e a fruição com que ela criava a sua arte.
Mais uma jornada completa (e já vão quatro destas) – uma perna a ranger, um braço maneta, a cabeça a latejar como ferros de uma orelha à outra; e eis que conseguimos chegar ao fim sem dizer uma única asneira durante o dia todo, sermos indelicados ou atirarmos a pilha de papéis da secretária ao tecto. Palmadinha nas costas a mim próprio.
Pode ter piada estar no palco; mas assistir no camarote pode ser mais compensador, em especial se a peça é sempre a mesma, só variado os actos – os actores mantêm-se sempre fiéis aos papéis distribuídos, não há sobressaltos no enredo, apenas o nosso olhar, enquanto espectadores, se altera, transformando consigo o nosso julgamento também.
(...) como se aquilo que eu escrevesse mudasse alguma coisa. Não muda. Sou apenas um homem que faz livros, preso por um contrato que assinei sem ler, como de costume, a uma editora que me não agrada. Não tenho grandes ilusões. Nem pequenas, aliás. A árvore, em frente da minha janela perdeu as folhas: ramos torcidos, sombras de pássaros nem sonhar. Eu reflectido no vidro, sentado a esta mesa. Esferográficas, páginas, uma lupa, porque as primeiras versões são numa letrinha minúscula que, por vezes, me custa ler. Trago uma espada no peito. Volta e meia torce-se nos pulmões. E lá está a crónica a resistir. Não quer ser feita, tem a consciência de não valer grande coisa. E, mesmo que valesse grande coisa, o que valia? Não há imortalidade: há o silêncio que se vai espessando à volta de um nome, até o nome desaparecer por inteiro. E, até desaparecer, tanta inveja, tanta mesquinhez, tanta patetice. Para quê? A nossa existência é um pequeno evento pedestre: quem se rala? Os outros, por muito que nos queiram, estão de fora. E, depois, partem, construindo-se uma nova alma. Aqueles de quem gostei tornaram-se ausências que se estreitam. Continuo a lembrar-me deles: vai doendo menos. Vai doendo menos? Vai doendo menos. Quem se lembrará de eu pequeno?
a minha língua é a pátria portuguesa
coisas extraordinárias do gabinete
grandes crimes sem consequência
pequenas ficções sem consequência
LEITURAS
18 Palavras difíceis – Luís Rainha
E a noite roda - Alexandra Lucas Coelho
Os incuráveis - Agustina Bessa Luís
O original de Laura - Vladimir Nobokov
The Art of Fiction – David Lodge
Short Movies – Gonçalo M. Tavares
CIDADES