Foto Pedro Loureiro
O programa em causa.
The Guggenheim Museum has digitized a ton of its out-of-print publications and is offering them free. This is a treasure of art literature as well as great book cover design.
I. Atacar de forma sistemática alguém nem sempre representa ódio, geralmente é amor.
II. Um amor não correspondido que se sustenta durante anos não justifica uma pessoa apaixonada mas uma gravemente doente.
III. Algumas pessoas mudam. Mas são muito poucas.
IV. Uma coisa grotesca não o deixa de ser por a maioria aplaudir.
Estar trancado em casa a trabalhar o dia todo excepto umas excursões rápidas ao café da rua para atestar de cafeína começa a produzir efeitos secundários. Um dos mais visíveis é uma tendência excessiva para o consumismo desenfreado. Hoje o dia finalizou com uma quase compra de um móvel vintage e um cão. Se a compra do móvel ainda consigo justificar de forma racional, há sempre estantes a menos para os livros e tralhas que pululam na minha toca, a do cão é mais problemática por ser de foro muito sensível. Estou indeciso se o cão colmata uma falha sentimental ou se o que tenho é medo dos ladrões. Nenhuma das duas opções é boa.
Regresso a Berlim mais uma vez e já só quando estou a caminhar nas ruas gélidas da cidade descubro esta evidência. Em todas as viagens sucedeu o mesmo, vivo no momento um novo romance e, simultaneamente, enterro um antigo, amargo e pesado. Tenho o corpo na esquadria da cidade mas o pensamento nas linhas fluídas dos grandes eventos pessoais. Berlim é uma cidade dura, pela história e arquitectura, e penso se alguma vez terei de facto visitado a cidade, quando romantismo é a única palavra que jamais será possível associar a ela, e se não é por isso mesmo que volto a Berlim uma e outra vez.
A segunda encomenda chegou hoje inesperadamente na forma de um email. Quatro linhas apenas, um pedido de reunião e um número de telemóvel. Já tive casos amorosos que começaram por menos.
Estou cansado. As articulações roídas, os nervos esticados. Talvez seja domingo e a manhã inicie luminosa, a claridade em força na copa das árvores. Tranquilidade e desassossego em doses finas e letais. Hoje é mais uma manhã, ou a última manhã, do início da contagem decrescente. Tenho à espera livros e preços de bilhetes de avião para comparar. A Europa é um mapa e a crise joga a meu favor. Hoje é mais uma manhã de domingo e não tenho palavras que remedeiem o facto de todos os fins e recomeços serem duros e levarem-nos frases e histórias inteiras que nunca mais vemos. Não possuo palavras, apenas manhãs adocicadas de planos e contracurvas, enterros e construções. Tenho todas as manhãs em mim e um olhar endurecido pela responsabilidade de ver o dia a nascer sob os telhados e a copa das árvores.
Divido-me em pesar na balança cada uma das tuas palavras ou todas as minhas.
A passagem abrupta do Verão para as tempestades outonais, com as sarjetas entupidas de folhas e a tristeza a submergir a cidade, assemelha-se ao mesmo desconforto de uma mudança brusca de comportamento em alguém que guardávamos nos afectos como exemplar. Se a primeira mudança traduziu-se num ataque de falta de ar, os pulmões a explodirem como se fosse impossível o corpo adaptar-se à adversidade dos céus; a segunda teve como desfecho uma tentativa de respirar sofregamente e sentir o ar ser filtrado pelos buracos de um botão.
Uma vez recebi uma carta que ainda jaz em alguma gaveta que rezava assim. (...) Ainda agora espero que a porta abra e sejas tu. Que voltes atrás, que reconsideres. Gosto muito de ti, mas gosto ainda mais de mim.
Não deixa de ser estranho escrever um título de um texto e perceber que já o utilizámos antes. De tempos a tempos, lamento coisas, e, sinceramente, deveria lamentar mais. Só me fazia bem. Lamento não ter tido o tempo e o discernimento para ter estado mais com algumas pessoas e não ter registado as suas histórias em vez de confiar apenas na memória. Ontem disseram-me, vais esquecer coisas, é impossível recordares tudo, num prenúncio infeliz do que seria o dia de hoje. Lamento também, das palavras que escrevi, as que não foram correctas, por distracção ao outro, ou às regras que gosto tanto de me guiar mas que por vezes jazem por terra por falta de atenção à vida. Lamento muito.
Uma semana com dois domingos não pode ser coisa boa.
Nos melhores dias digo que sou persistente; nos piores, quando sinto dificuldade em aturar-me, digo que sou chato, um cão perdigueiro em busca de uma caça imaginária. Em manhãs pardas e cheias de possibilidades como a de hoje, em que vejo nitidamente sequências e vontades, sinto-me apaziguado por não desistir, mesmo que cruze muitas vezes os braços. Continuo a acreditar, a amar e a odiar exactamente da mesma forma, e a impossibilidade de fuga ao que sou determina o que serei sem contemplações de merda.
... depois do mundo acabar só podia ser um domingo. raios parta.
Em vez de escrever, ouço – as palavras dos outros a desfiarem histórias de fim trágico; os apitos dos barcos no rio em manhãs de nevoeiro a entrarem como lamentos pelas janelas; o homem que canta na esquina uma desgraça de amor antiga; as palavras de ordem de milhares a caminharem nas ruas; os sinos a tocarem a arrabalde unindo as colinas; as ordens intempestivas que me ditas ao ouvido; as voltas que dou sobre mim próprio.
O medo pode ser um táxi a entrar veloz numa rotunda com várias faixas de rodagem apinhadas de trânsito furioso. É possível que se concretize num elevador cheio que pára em todos os andares até chegar ao céu do edifício. Sofás, panelas, moda, e o diabo, tudo arrumado em prateleiras, cabides e vitrines. Pode surgir numa sala ampla na penumbra, com a respiração de centenas e eventos malabaristas debaixo dos holofotes. Pode acontecer, como pequenas réplicas de um tremor de terra que se anuncia.
É naquilo que não te digo que residem todas as minhas palavras.
I. Olhar para o desejo à semelhança de uma imagem projectada no ar. Doer uma omoplata e o espaço entre o pescoço e o coração. Não dormir e sonhar acordado. Estender o tempo em círculos nocturnos perfeitos. Despedidas em ruas sujas de restos febris e olhares espantados. Cair da cama abaixo. Espalhar moedas e isqueiros nos interstícios das palavras. Dar cabo do estômago com cafeína.
II. Os dias alongam-se e há horas impossíveis para tudo. Tu tens é sono, sussurra o escaravelho que assentou arraiais na minha escrivaninha. Agora não me doí nada. Talvez uma impertinência aqui ou acolá, nada de monta. Há algo de asséptico em ser bem sucedido. Substituir sangue e lágrimas por suor e saliva, coisas sem valor por pedraria valiosa. As imagens continuam a chegar – escadas rolantes paradas, ondas, instantes mais ou menos felizes, loucuras, mazelas, pontas por atar, pequenos nadas de uma comunhão.
a minha língua é a pátria portuguesa
coisas extraordinárias do gabinete
grandes crimes sem consequência
pequenas ficções sem consequência
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