Terça-feira, 13 de Julho de 2010

 

Muito se tem falado e escrito sobre os últimos acontecimentos na área da cultura. A uma situação por si só já muito precária juntou-se uma ministra autista e desvairada. A cada declaração o caixão desce mais um pouco e lá dentro estamos todos nós, a cultura, a crise, os problemas do sector. A maior parte da minha vida profissional trabalhei ou estive envolvido na área da cultura. Poderia fazer várias considerações com conhecimento de causa mas não seriam pertinentes neste momento em que o assunto está na ordem do dia. Sempre que há um corte no dinheiro atribuído ao sector, ou os subsídios atrasam, é desastre certo. Um belo exemplar de pescadinha-com-rabo-na-boca – semelhante às outras áreas, pagam sempre os pequeninos e é por o sector ser feito na sua essência de pequeninos que é tão frágil. Os pequeninos que trabalham a recibos verdes, que são despedidos de um dia para o outro, que recebem muito abaixo da tabela comparando com os profissionais de outras áreas.

 

Sou contra a prática de estagiar desde sempre. Muito antes de ser um estatuto massificado. Parece-me a forma mais bárbara de escravidão actual. Exceptuando algumas áreas profissionais onde penso que um estágio seja realmente necessário antes de entrar na vida profissional activa – medicina, etc – a maior parte dos sectores que engordam à conta desse tipo de escravidão deveria ter consequências legais pesadas. Em todos os sítios onde trabalhei hasteei a minha bandeira. Recusei-me a fazer entrevistas para estagiários, emiti a minha opinião em reuniões com as direcções, fiz finca-pé para que atribuíssem salários a quem estava há mais de três meses a trabalhar de borla. Umas vezes ganhei, outras coloquei o meu próprio emprego em perigo com discussões intermináveis, a maior parte das vezes semeei inimigos. E não foram poucos. Isto não quer dizer que a maioria das pessoas seja a favor desse tipo de exploração, mas tão-só que é tão habitual que já não colocam em causa. O maior problema de todos é sempre a indiferença. 

 

No entanto indigna-me que os organismos culturais que hoje levantam a voz contra a ministra sejam eles compostos a maior parte das vezes por estagiários ou profissionais a receberem pela tabela mínima e sem condições. A desculpa da crise, da precariedade do sector e mais ministra, menos ministra, não desculpa uma prática abaixo de cão. No fundo, o que as notícias dos últimos dias permitem antever com clarividência é que mais situações destas vão surgir com desculpas cada vez mais refinadas – a crise, a falta de dinheiro, a ministra que é saloia, o governo que não lembra ao menino jesus, e todos nós que não temos consciência cívica. E porque não quero com este post iniciar uma discussão que já estou careca de praticar faço-vos um convite – uma razia aos anúncios de emprego com o que escrevo presente. 



afonso ferreira às 01:17 | link do post | comentar
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