Quinta-feira, 15 de Julho de 2010

 

É da marca Pepsodent, a caixa de cartão é verde e tem uma ilustração com meio limão, aloé vera e outra planta que parece hortelã. À primeira escovadela fiquei repentinamente a olhar para a minha imagem no espelho, a escova submersa na gruta da boca, o cabo na mão suspensa pela surpresa. Ergui uma sobrancelha e continuei a escovar. Depois fui ler as letras miudinhas como nos contractos e fiquei na mesma. Não que seja assim tão burro que não saiba ler, mas a minha inteligência também não chega para decifrar uma língua estrangeira que aposto um membro da família como não é europeia. As únicas palavras que decifro é Pepsodent e herbal, o resto veio da Torre de Babel. Eu nunca tinha olhado com atenção para uma pasta dentífrica na minha vida. Nunca tinha franzido os olhos, as pestanas a encostarem umas nas outras, para conseguir ler as letras corpo dois dos ingredientes. Mas, na verdade, quando faço dos olhos um risco, não estou a ver a pasta, estou a olhar para a minha vida e a pensar no que é que aconteceu para andar a comprar pastas de dentes à uma da manhã. A essa hora devia estar a beber copos, a fazer sexo, a ler ou a dormir. Qualquer coisa, tudo menos compras de primeira necessidade. Esta pasta é a prova e o sabor da minha falência enquanto adulto.



afonso ferreira às 01:29 | link do post | comentar
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7 comentários:
De CCF a 15 de Julho de 2010 às 16:38
Quantas vezes não senti o mesmo em certas Sextas e Sábados à noite...mas no fundo a solidão também nos ensina coisas, e prepara-nos para outro (ou o mesmo) amor. Tenho mais pena de quem nunca conseguiu estar só, a olhar para as indicações da pasta de dentes, a ler as caixas de flocos, ou especado a ver televisão sem sequer dar conta do que está a ver. É que há quem "consuma" pessoas como coisas, com a mesma sofreguidão.
~CC~


De omeuinstante a 15 de Julho de 2010 às 23:19
" As únicas palavras que decifro é Pepsodent e herbal, o resto veio da Torre de Babel."
Frase muito interessante: apresenta Babel como lugar de impossibilidade de discursos; apesar disso, é em Babel que se encontram as origens da linguagem e dos significados. Acesso ao pensamento. Uma antinomia?


De afonso ferreira a 18 de Julho de 2010 às 00:30
A Torre de Babel é associada às origens das línguas porque deus ficou chateado com a ideia de uma torre a chegar à casa dele. destruiu a torre e espalhou as pessoas pela terra. é essa a lenda. lembra-me mais caos e ira divina do que acesso ao pensamento.


De omeuinstante a 18 de Julho de 2010 às 01:34
É simples. Os mitos, para além da história, explicam.
Este pode ser lido como o momento do aparecimento /fim da linguagem. Ora, só há linguagem pelo pensamento. Pela linguagem acedemos à compreensão do Pensamento. Ela é também um instrumento do pensamento. Mas, claro, a linguagem não tem só essa função.


De LampâdaMervelha a 17 de Julho de 2010 às 04:46
A quem o dizes, a quem o dizes. Sexta à noite, só por acaso...

E dá-te por sortudo, porque armei-me em esperto e comprei uma que se escusa a misturar-te na boca.


De afonso ferreira a 18 de Julho de 2010 às 00:30
não me diga que também andou às compras de madrugada?


De LampâdaMervelha a 18 de Julho de 2010 às 14:22
Durante a madrugada apenas (me) gasto.


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