Terça-feira, 7 de Setembro de 2010

 

Começou com um post estranho na rede social. Tive de ler duas vezes. Alguém tinha deixado na wall de uma pessoa conhecida uma mensagem de despedida. Começam a surgir uns burburinhos. A pessoa não responde às mensagens nem aos apelos para que dê notícias. Juntam-se mais pessoas. Rapidamente percebe-se que entre as que estão online naquele momento nenhuma o conhece bem, e, consequentemente, ninguém tem o número de telefone. Há sempre alguém, sempre, que lembra-se do cliché, quem avisa da intenção de matar-se na realidade está a fazer um apelo, uma chamada de atenção. A minha experiência diz-me que essas chamadas de atenção acabam em tragédia. Ainda tenho na memória o último funeral em que estive presente. Fomos enterrar uma ameaça inofensiva, parece que só queria dar nas vistas, doeu que se fartou. Perco algum tempo a ler as mensagens que neste momento já surgem em catadupa. Uma coisa eu sei, quando alguém ameaça ou não, é sempre, sempre para levar a sério. Portanto decido fazer um jogo. Em quanto tempo consigo encontrar esta pessoa? Dou dez minutos a mim próprio. Começo pelo nome e o mais óbvio, a página na rede social, mas como não nos conhecemos nem somos sequer amigos virtuais não tenho acesso a nenhuma informação. Faço buscas na internet e encontro algumas pessoas com o mesmo nome, ou será a mesma pessoa com várias vidas, fico na dúvida mas decido seguir a intuição, os minutos estão a avançar rapidamente. Cinco minutos depois arrisco que deve estar numa zona específica do país, descubro que tem uma profissão paralela, é bombeiro. Nove minutos, o telefone toca no quartel. Passa das duas da manhã e estou cansado. Quando atendem o telefone improviso o discurso. É preciso explicar a situação, quem somos, que não conhecemos a pessoa em causa e acima de tudo que não convém ignorar a ameaça. Para sermos bem-sucedidos há que falar com calma, o que parece um contra-senso se atendermos à situação que estamos a tentar resolver. O bom senso também diz que a ser uma ameaça real é melhor que sejamos céleres. Do outro lado encontro uma pessoa cordial e preocupada, o que é meio caminho andado para chegar a algum lado. Acabo por saber a história de vida do meu desconhecido, tratam-me como se fosse um familiar embora explique que não nos conhecemos, a primeira vez que ouvi o nome dele foi na malfadada mensagem de despedida. Peço que telefonem à pessoa, que a tentem encontrar. Deixo o meu nome e número de telefone. Pedem-me que contacte novamente se souber de mais alguma informação. Encontrar uma pessoa pode ser um acto complicadíssimo nalgumas circunstâncias. Quando volto à internet os ânimos estão cada vez mais exaltados. Estranhamente a pessoa que mais disparates diz e inclusive ataca outra nas mensagens diz ser psicóloga. Com a chegada de mais esta comentadora os disparates sobem de nível com a agravante de não saber comportar-se nem respeitar os outros. O nível de acusações e certezas descompensadas dispara em todas as direcções com esta entrada. Claramente um caso clínico. O telefone toca e é o bombeiro. Não conseguem entrar em contacto com ele, não atende o telefone, não têm a certeza da morada, mas vão enviar uma equipa. Mais conversa e fico a saber mais pormenores. É impossível não fazer o paralelo, e se fosse comigo? Se as coisas ficarem tão negras, se cair num abismo tão profundo, que a ideia de suicídio seja sedutora? 



afonso ferreira às 05:55 | link do post | comentar
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11 comentários:
De Vera a 7 de Setembro de 2010 às 09:54
Parabéns Afonso. A tua inspiração continua invejável...pelo menos para mim, que me sinto completamente desprovida de ideias escrevíveis e interessantes.
Bjs


De afonso ferreira a 7 de Setembro de 2010 às 11:50
Desprovida de ideias? Não acredito em nada disso. Ou não existisse um blog cheio de posts a comprovar a minha teoria :)
bj


De Vera a 7 de Setembro de 2010 às 12:08
Um blogue cheio de posts não quer dizer um blogue cheio de posts de qualidade, certo? Daqueles que acabas de escrever e sentes orgulho. É desses posts que quero escrever!!!
Obrigada pelo teu ânimo e por me leres


De clara a 7 de Setembro de 2010 às 11:23
tb vi. achei tão estranho. a psicóloga...estas coisas são tão estranhas, dão-nos a volta à cabeça. estará tudo bem com ele?


De afonso ferreira a 7 de Setembro de 2010 às 11:45
infelizmente, não sei. vou entrar em contacto com os bombeiros para saber notícias. enviei-lhe uma mensagem mas ele não respondeu. a psicóloga era apenas uma pessoa que tirou um curso de psicologia, não mais do que isso.


De clara a 7 de Setembro de 2010 às 11:47
bom, está no perfil dele um UD a dizer q está bem, a agradecer o apoio e isso, que está a passar por uma fase menos boa [entretanto copiei-te o post porque aquilo estava-me a fazer cá uma confusão].


De afonso ferreira a 7 de Setembro de 2010 às 11:51
Eu não tenho acesso ao perfil dele.


De DESIGN TRAVEL a 7 de Setembro de 2010 às 12:37
O meu nome é Tiago Krusse e foi no mural da página que criei no Facebook que recebi a mensagem suicida. Fiz o que estava oa meu alcnce, não para sossegar a minha consciência mas para pedir ajuda a álguém que estivesse próxima daquela pessoa, cuja serenidade e tranquilidade foi posta em casa pelo teor da sua mensagem.
Hoje, recebo a mensagem da pessoa em causa, dizendo-me que está bem e agradecendo o carinho manifestado. Fiz o que estava oa meu alcnace e o melhor que sabia. no final, essa pessoa não acabou a vida e para mim, esta é a notíca mais importante.
Um abraço,
t.


De afonso ferreira a 7 de Setembro de 2010 às 12:52
Caro Tiago,
seria possível pedir uma explicação acerca da mensagem que acusas de ter enviado "cuja serenidade e tranquilidade", nas tuas palavras, perturbei?
Parece-me que a tua mensagem no meu blog é que não é nem serena nem tranquila.


De Ana macedo a 7 de Setembro de 2010 às 12:51
«Faço buscas na internet e encontro algumas pessoas com o mesmo nome, ou será a mesma pessoa com várias vidas....»

Esta frase é brilhante!
Se for a mesma pessoa com várias vidas...
Qual delas precisa de ajuda?

Sigo-o com atenção e muito prazer. Parabéns pela sua escrita!


De DESIGN TRAVEL a 7 de Setembro de 2010 às 12:56
A serenidade e a tranquilidade de que falo é da prórpia pessoa que me deixou a mensagem suicida, pois quem expressa que vai acabar com a vida, não pode, no meu entender, estar serena e tranquila. Foi o que quis expressar e peço desculpa se não me fiz entender e se passei uma ideia errada com o meu anteriro comentário. As minhas sinceras desculpas.
Um abraço,
t.


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