Segunda-feira, 18 de Outubro de 2010

 

(...) ela avançou, abriu as pernas com os joelhos em ângulo recto, colocou-se sobre o sexo dele e três vezes se baixou sobre o seu corpo. Depois avançou um pouco mais e cobriu-lhe o rosto com a túnica. Era o avesso da noite, uma mordaça asfixiando o grito, um azul carbonizado e espectral, a noite infinita e sem estrelas. E partiu. Ao abrir os olhos húmidos, viu vários clarões do flash de uma máquina fotográfica e ouviu uma gargalhada em que lhe diziam: "Para que jornal português quer que lhe mandem as fotografias, professor?" 

 

 

O pior conto (?) erótico que li foi escrito por Eduardo Prado Coelho e encontra-se no Tudo o que não escrevi, Diário II (Paris, 17.05.92). É tão mau, mas tão mau, que entrou por justa causa, sem cunha nem amizades utilitárias, para o meu top de literatura imprescindível. Confesso que antes de evocar Prado Coelho experimentei algum desconforto. Não evocarás o seu nome em vão, disse-me o grilo que acompanha a minha mente torturada, mas recordei-me que já morreu e acima de tudo tinha sentido de humor. Quanto ao conto são inúmeras as razões para gostar tanto. Situado no Rio de Janeiro, no período final da ditadura militar, evoca o clima febril daqueles dias. As personagens femininas respondem pelos nomes de Bárbara Celarent e Sibila, oscilam entre a mulher fatal e o travesti, usam luvas negras até ao cotovelo em pleno Verão carioca e calçam sapatos vermelhos de salto alto de forma desequilibrada e insegura. Nem a Mónica Marques se lembraria disto. O personagem masculino atira gravatas para a areia – uma gravata no Leblon! que insensatez! –  e o auge atige-nos sem piedade com o relato da violação do protagonista na praia por uma rapariga de túnica negra mascando incansavelmente chiclete. As referências às farpelas dos personagens são tantas que ponderei se o Tom Ford não estaria interessado em realizar o seu segundo filme. O protagonista é de tal forma um alter ego do autor que a meio do texto escapou uma gralha, numa mesma frase a primeira e a terceira pessoa confudem-se. Convém frisar que cresci a ler o Eduardo Prado Coelho, faz parte do plantel que guiou-me pelos livros e pela vida e por isso mesmo este conto é digno de figurar na minha lista, má literatura erótica é o que não falta, o seu encanto reside precisamente no autor. O problema deste tipo de literatura em relação aos outros géneros é que não é preciso apenas escrever bem, é fundamental perceber de sexo. 



afonso ferreira às 00:49 | link do post | comentar
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5 comentários:
De Bípede Falante a 18 de Outubro de 2010 às 13:16
Afonso, do jeito que a humanidade reprime o sexo e tenta retirá-lo do mundo das palavras, como se elas não fossem também uma fonte enorme de prazer, quero mais é ler qualquer coisa que passe por ele, mesmo que caía na bandalheira :)
beijo.


De afonso ferreira a 21 de Outubro de 2010 às 03:10
Compreendo perfeitamente :)
bjs


De omeuinstante a 18 de Outubro de 2010 às 16:38
Fui (re) ler. Até nem é assim tão mau. Quem retira das mnemónicas da lógica aristotélica medieval o nome das personagens, quer introduzir o leitor no lugar secreto da memória e das possíveis reminiscências.
Há deslocação de sentido, quase um não-sentido, onde se esconde o prazer do texto. Sentimos que Prado Coelho foi capaz de "afrontar o verbo na sua nudez absoluta e excessiva".
Eduardo Prado Coelho foi sempre um sedutor,sim.


De afonso ferreira a 21 de Outubro de 2010 às 03:11
Eu penso que é um comentário acertado, mas no fundo continua a ser o meu conto-desastre preferido.
E, sim, era um sedutor.


De Conto erotico a 23 de Novembro de 2010 às 14:52
Olá Afonso,

Penso que reprimimos demasiado o sexo e hoje em dia o prazer também passa pela leitura e assim com eu gosto de ler várias são as pessoas que o fazem mas não admitem.
Bj


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