Sexta-feira, 10 de Dezembro de 2010

 

 

Estava eu a sair de um evento há umas semanas e encontro casualmente um amigo. Ficámos à conversa na rua e subitamente passa na direcção contrária uma pessoa pela qual o meu coração bate há muito tempo. Fiquei petrificado quando vi o meu amigo a chamar a pessoa em causa e a cumprimentar efusivamente, não fazia ideia de que eram tão íntimos, nem sequer conhecidos. Apresentam-nos e dou por mim com a pessoa à minha frente de olhos dengosos a olhar este vosso criado. Tenho um ataque merdoso de insanidade e não digo uma para a caixa. Limito-me a meia dúzia de palavras de circunstância. Nenhuma tirada inteligente, nenhuma graça de jeito, nenhum comentário que fique para a história. Nada. O deserto. O meu cérebro sofreu uma lobotomia temporária e abandonou-me num momento crucial para a minha felicidade futura. Filho da mãe. Nunca mais esbarrei na pessoa, a vida é uma merda e depois morremos. Hoje chego a casa e venho a pensar neste evento funesto, tenho um discurso preparado ao pormenor silábico em que consigo misturar inteligência, humor e sedução em três curtas frases. Uma arma pronta a disparar em caso de assalto súbito, o problema é saber onde é que pára a pessoa. Enquanto penso nisto, que a cidade afinal é um território imenso, ligo distraído a televisão e eis que a vejo a falar em directo. De uma assentada não só a vejo como sei onde está naquele preciso momento, nunca mais digo mal do gabinete. Agora é só atravessar a cidade, enganar uma dezena de seguranças, entrar no estúdio de televisão e dizer as três frases. Desta vez não admito uma derrota.



afonso ferreira às 23:01 | link do post | comentar
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2 comentários:
De nuno granja a 11 de Dezembro de 2010 às 00:42
Mais uma vez excelente.

Se fosse sobre politica comentava mais, já futebol nem por isso, mas quando é a vida, normalmente fico sem palavras.


De Loup Garou a 13 de Dezembro de 2010 às 18:36
Eu nunca hesitei e, curiosamente, quase sempre consegui.


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