Domingo, 24 de Janeiro de 2010

 

O dia seguinte foi feito de promessas, de pequenos nadas com valor cambial elevado. Ausculto a memória e lembro-me do teu sorriso franco, do título no jornal despropositado, a nossa conversa, catarse do tempo em que estivemos afastados, tu descalço a fazer café. Todo o tempo do mundo e ainda assim tanta urgência. O mar suficientemente perto para ouvirmos o seu rumor pelas janelas entreabertas. Hoje penso nas tuas palavras e reconheço-lhes razão: há um imbecil em cada esquina, o problema é se estás preparado para o reconhecer.

 

No dia seguinte eu não ouvi as tuas palavras. Meu amigo, até vou mais longe, diria que desde a nossa conversa o não-reconhecimento está entranhado em mim.

 

Há vários factores que o justificam. Um dos problemas é que não se aufere o grau de imbecilidade de uma pessoa pela aparência. Pior, nem pelo discurso ou gestos. Muitas das coisas proferidas até podem estar de acordo com os padrões contrários. Os gestos podem revelar aparentemente sentimentos nobres e preocupação pelos outros. É necessário tempo e persistência para afirmar convictamente, sem hesitações, esta pessoa é um imbecil chapado.

 

É preciso aturar conversas intermináveis sobre afinal coisa nenhuma, é necessário preparar armadilhas para perceber que a pessoa falha miseravelmente em todas, é imprescindível ler com atenção a espuma de fel dos dias, as palavras amargas, o desprezo pelo que é humano. Depois disso, quando não há nada a fazer – a constatação é esmagadora –, ainda somos torturados pelos polícias e os cães dos bons costumes mais as suas dissertações, que dão ganas de cortar os pulsos a qualquer pessoa sensata, e teremos de explicar, uma e outra e outra vez ainda, o que é ser imbecil

 

Se a maré de estupidez humana não estancar, é preciso provar num estranho tribunal onde não existem leis escritas, que X é realmente um verdadeiro imbecil, por A mais B. Sendo que é possível o advogado de defesa não perceber o que é A, muito menos B, e, provavelmente, ser também um imbecil chapado como X. O tédio costuma apanhar-me nessas alturas. Não o tédio de bocejar, antes o da impotência. Não há acção possível para isto.

 

Os imbecis ganharão sempre. Só em número tramavam-nos logo, meu amigo. São exércitos e exércitos prestes a matar-nos com as suas baionetas de estupidez. A cada argumento lógico nosso há duas respostas impossíveis do outro lado. No limite, basta não assumirem o que fizeram ou disseram, neste falso mas tão real tribunal, isso é válido. 

 

É preciso respirar e respirar pelo dia seguinte sob pena do tédio ser irreversível.



afonso ferreira às 11:40 | link do post | comentar
|

2 comentários:
De Dakota a 25 de Janeiro de 2010 às 11:25
A maior parte das vezes, a maioria é o lado onde estão todos os tolos.


De afonso ferreira a 26 de Janeiro de 2010 às 10:39
Já constatei isso pessoalmente. são exércitos e exércitos de tolos


Comentar post

Dezembro 2012
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1

2
3
4
5
6
7
8

9
13
14
15

16
17
18
19
20
21
22

23
24
25
26
27
28
29

30
31


Artigos recentes

the end

Sleepless people

provérbio transmontano

cry me a river

Falta de rigor

obrigado

prémios literários

meia-noite

battle

status

Día domingo

imaginação

virtudes públicas, vícios...

fios

Estudos de um processo

constatação de sábado

A história de uma tragédi...

Dias felizes

A Alice é psicótica

debandada

Arquivo

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Arquivado em

a minha língua é a pátria portuguesa

cartas

casamento gay

coisas extraordinárias do gabinete

conversas de caserna

corrupção

dias felizes

domingo

domingos

estudos

ghost writer

gira-discos

grandes crimes sem consequência

literatura

mercados

mundo virtual

outras cidades

paixonite

pequenas ficções sem consequência

perdido no arquivo

playlist

relvasgate

sonhos

suicídio público

taxistas

telenovela

um homem na megalópole

vendeta

viagens

todas as tags

links
Twitter
subscrever feeds