Segunda-feira, 14 de Dezembro de 2009

 

 

Vi-a pela primeira vez num dia de Janeiro. Daqueles em que o frio entra pela goela e a cabeça do meu dedo indicador esquerdo fica sem sensibilidade. Atravessei o corredor e cheguei à sala. Quatro metros de pé direito e janelas a condizer, altas, esguias, portadas de madeira mais antiga do que eu a abrirem para o terraço. E o Terreiro do Paço e o Tejo e as gaivotas a aparecerem no buraco daquilo que restou do incêndio que consumiu o prédio em frente. E o sol. Sol a queimar a minha cara sem piedade. Eu de óculos escuros a olhar para o Tejo em vez de olhar para os fios eléctricos lastimáveis, para o soalho desconjuntado. Eu sem perguntar quanto é que era a renda. Eu sem ir ver a casa de banho, nem o quarto, sem saber que ainda havia outra sala que dava para a arquitectura das árvores e a copa da cidade. Eu a dizer

 

 

Fico com ela

primeiro em silêncio e depois em voz alta, e, subitamente, a tirar os óculos e a perguntar com ar preocupado ao senhorio

Não há mais ninguém interessado, pois não?

 

 

 

E depois os inquilinos partiram rumo a uma casa na baixa, as obras começaram e eu só pedi para pintarem as paredes de branco, ajudam-me a pensar e a respirar melhor. E um dia abri a porta e entrei. Montei um estaleiro na sala e surgiram estantes que não chegavam para todos os livros e mesas para dez pessoas e camas de casal e comecei a viver feliz a minha solidão. Havia um gato centenário que entretanto emigrou para um país nórdico e um papagaio albino que roubava biscoitos na cozinha. Existiu um rato que comia cerejas do fundão à socapa mas uma vez a socapa correu mal e tivemos de fazer o funeral ao bicho. Já quase não recordo a fealdade da casa de banho original. Na sala da frente morreu uma pessoa há vinte e cinco anos, quando há uma tempestade entra água pelas janelas e agora já só vejo o rio de esguelha. Mas mesmo assim é a casa mais bonita que já vi.



afonso ferreira às 12:46 | link do post | comentar
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