Quinta-feira, 29 de Julho de 2010

 

À minha indicação para seguirmos para a igreja percebeu que era para a maternidade. Quando perguntei pelo acidente, a causa de não haver eléctricos, respondeu que podia fumar. De maneira que contínuamos viagem, ele a cantarolar, eu afónico, ambos a fumar.



afonso ferreira às 16:40 | link do post | comentar | ver comentários (1)
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Se acredita em tudo o que ouve, o melhor é não ouvir nada.



afonso ferreira às 11:50 | link do post | comentar | ver comentários (2)
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Quarta-feira, 28 de Julho de 2010

 

Escolhidos, cortados, analisados, costurados, rasgados, colados, unificados, finalizados. O primeiro conjunto de contos. Não foi tarefa fácil. Eu quase a partir de férias. Eles a um passo de partirem por correio para outras mãos. 



afonso ferreira às 01:22 | link do post | comentar | ver comentários (3)
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Esta noite, em Alfama.

 

Com um agradecimento ao m. pela fotografia.



afonso ferreira às 00:39 | link do post | comentar
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Segunda-feira, 26 de Julho de 2010

 

 

Por estes dias os céus tingem-se de cinzento, de fagulhas, de cheiro. Por estes dias, todos os anos o mesmo sacrifício, as narinas a arder, os olhos mudos, o espectáculo do mundo em directo a queimar a pele em lume brando. Por estes dias surge a lembrança de outro verão, tão longe e ainda assim aqui, à mão de semear, onde assistimos ao país a arder, nós tão longe a descodificar a desgraça em televisões estrangeiras, com rodapés enigmáticos, e o que ouvíamos eram as gentes das terras a carpir. Por estes dias passamos a noite a ver a nuvem de fumo sobre a cidade a resfolegar, a relembrar o carro a passar por entre as chamas na auto-estrada, o norte a arder, a montanha iluminada de noite, a coluna de fumo sobre o mar e nós tão pequenos.



afonso ferreira às 23:24 | link do post | comentar
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Domingo, 25 de Julho de 2010

 

Na praia não há um espaço livre mas isso não me incomoda. O mar tranquilo, um avião a riscar o céu. Depois piruetas, cambalhotas aéreas, parece perigosamente próximo da linha de água. Os barcos a passar. Uma pirueta, duas, três. Agora pirueta a girar sobre si próprio também. Foi assim que o outro morreu. Uma pirueta na avioneta para impressionar a mais-que-tudo. Tão bom rapaz, não fumava nem bebia. Os barcos a passarem. Ela assistiu a tudo, a cambalhota falhada, o avião a cair, o rapaz inteligente lá dentro, a queda fatal. Não fumava, não bebia. O velho forte é bonito e é feio, simultaneamente. Garantem-me que em Novembro vai ser palco de conspirações. Vem aquele muito importante, e os outros também. Os barcos a passarem. Eu a contar tatuagens. Parece que estou outra vez na Checoslováquia há doze anos. Tatuagens e filhos. Tantas crianças a caminho e tantas pessoas desorientadas. Na praia, um dia de sonho. Interrogo-me por que serão os melhores amigos tão parecidos? Não me pareço com ninguém. O helicóptero no céu com o contentor da água a oscilar. Os incêndios ao longe. O país a arder e esta água tão fria. Os barcos a passarem. Falas-me desta arquitectura desaparecida, estas construções, estes fortes que arquitectámos no mundo inteiro, que resistem à força do mar, que não cedem. Eu nunca tinha pensado nessa força, conversar é isto também, emprestarem-nos outros olhos, obrigarem-nos a olhar estupefactos para a força de algumas ideias. O mundo a mudar tão rápido. Neste dia de sonho, cheio de bons rapazes,  os barcos continuam a passar.



afonso ferreira às 23:26 | link do post | comentar | ver comentários (1)
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Sexta-feira, 23 de Julho de 2010

 

Um dos textos que li aqui foi o Sem amor, sem abrigo apesar da temática não ser a mais apropriada, pensei que seria pertinente ler o texto mais procurado no blog. Infelizmente, como se adivinha, a maioria das entradas são pessoas à procura de notícias sobre os suicídios ocorridos no próprio dia. A partir desse facto foi inevitável fazer a viagem inversa, procurar eu novas histórias também. O texto originou igualmente alguns emails. Mas a viagem mais complexa aconteceu no próprio evento. Ao jantar alguém questionava-me o motivo de ler um fórum de suicídios. Não tinha uma resposta pronta, e a esta distância só me ocorre dizer que não percebo como não o poderia fazer. Talvez no futuro, quando o puzzle estiver completo, tenha uma resposta mais sapiente, por agora continuo intrigado o suficiente para o continuar a fazer apenas. A mesma pessoa curiosa pelos minhas leituras mórbidas tinha uma história para oferecer. Era a segunda pessoa a quem a contava. Um dia ao ir para o trabalho passou por uma ponte. Na ponte estava um homem sentado. O instinto alertou-o para a situação e decidiu parar o carro e abordar a pessoa. O pior aconteceu, o homem saltou. Há um medo em nós quando pressentimos que o relato não vai acabar bem, mas como não o ouvir? Mas a situação mais dramática aconteceu no dia seguinte depois da minha intervenção. Uma pessoa leitora do blog que compareceu ao evento, contou-me no jardim, por entre caipirinhas e planos de férias, que o filho tinha cometido suicidio. Não consigo descrever o momento. Faltam-me palavras, falta-me estrutura para alinhavar palavra atrás de palavra para descrever o que senti. Talvez alívio, por nunca ter passado por uma perda dessas. Como ultrapassar algo assim? Estranha viagem a de alguns textos, na memória perduram recordações alheias –  o som que o corpo fez ao cair, o braço que ficou esfacelado na estrutura da ponte a tentar segurar o inevitável, o cinto que cedeu ao peso – e desejos de homenagem – será tempo de publicar os desenhos que ele era perfeito a fazer?



afonso ferreira às 13:41 | link do post | comentar | ver comentários (2)
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Quarta-feira, 21 de Julho de 2010

É sabido que uma excelente maneira de triunfar no país é obter sucesso no estrangeiro. E por estrangeiro subentende-se qualquer coisa já que ninguém se dá ao trabalho de verificar. Quanto mais exótico melhor. Anos e anos de batalha e trabalho são uma ninharia comparado a um aval positivo vindo de fora. É pois com prazer que comunico de antemão que o Homem na Cidade vai aparecer num jornal no Oriente. 



afonso ferreira às 13:38 | link do post | comentar | ver comentários (3)
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Se estou alegre compro livros, se estou triste faço o mesmo. Sou pouco original e as estantes são sempre poucas para a minha falta de ideias. As prateleiras estalam perante o peso da minha ineficácia enquanto ser humano diversificado. Há filas duplas de livros, arrumo atrás os que menos seduziram. Há livros na cozinha e em cima da televisão. Acordo de madrugada e em vez de ir tomar café olho para as pilhas de livros. Há uns tempos atrás era fácil, era o sinal para mudar de casa. Desmatelava tudo até ao último parafuso, deitava coisas fora, reorganizava os tarecos, distraía-me do mundo e fazia planos. Mas eu agora não vou a lado nenhum, é aqui que quero ficar. É por isso que acordo de madrugada e olho para as estantes. Está na altura de comprar mais.



afonso ferreira às 13:07 | link do post | comentar | ver comentários (4)
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Terça-feira, 20 de Julho de 2010

 

É prematuro fazer um balanço do ano mas um ano extraordinário justifica posts prematuros. No fundo, em sete meses, tive mais do mesmo: desilusões, facadas, alegrias, mediocridade, altos e baixos. A tempestade do costume. O que distingue este ano dos demais é a intensidade dos eventos. Um desamor não é apenas isso, é o pior que pode acontecer na distracção dos afectos ingénuos; uma amizade que traí, não é só a tristeza que isso causa é a perplexidade perante uma perfídia tão sórdida que nos falta palavras; a maldicência mostrou as suas verdadeiras lesões, perdi amizades também por isso, a injustiça de várias situações atingiram-me em pleno. Mas há também o outro lado. Os golpes de sorte sucedem-se pondo em causa até para mim, que vivo surpreendido com a cadência causa-efeito do mundo, se serão possíveis, tal as histórias recambolescas que os envolvem; novos amigos surgiram trazendo muito mais do que palavras vãs, que nada servem na hora das verdades. Na espuma do calendário nascem novas paixões relembrando todos os dias a sua grandeza comparado com os amores medíocres do passado. No final fico em saldo positivo e ainda vamos a meio. A luta continua.



afonso ferreira às 13:54 | link do post | comentar | ver comentários (1)
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As pessoas não casam para ser felizes. As pessoas casam para ser novas. 


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afonso ferreira às 13:10 | link do post | comentar | ver comentários (2)
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Um tipo até pensa que descobriu uma tipa que escreve bem, com ideias genuínas e corajosa. Um tipo fica embeiçado, dá-lhe pontuação elevada e elogios. Depois descobre que ela escreve o mesmo a todos.  


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afonso ferreira às 12:56 | link do post | comentar | ver comentários (7)
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De um dia para o outro, sem mais nem menos. Um dia estava tudo bem, no outro todos os planos caíram por terra. Eu sei que estamos longe, tantos países pelo meio, as notícias chegam por chat mas a solenidade da mensagem merecia um telefonema, como recordo na minha infância, com cortes e chamadas a cair, ruído de fundo, gritos para que do outro lado ouvissem umas palavras sussurradas, tal era a distância. Mas não, soube por linhas mecânicas perfeitamente alinhadas sem condescendência à gravidade do assunto. Por osmose e solidariedade mostro a minha raiva, também eu já me cruzei com esse tipo de pessoas. Excelentes a criar expectativas e melhores ainda a destruí-las. A nossa capacidade de compreensão é sempre proporcional à quantidade de vezes que nos queimámos. Apetece-me ir furar pneus de madrugada, não que resolva alguma coisa, mas estou farto da lentidão do mundo e de receber mensagens destas. Apetece trocar o consolo por acção. Talvez opte por um spray, sempre requer menos esforço físico.



afonso ferreira às 12:12 | link do post | comentar
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Correu bem. Embora falar para uma plateia não seja propriamente o que mais goste. Ao sair de cena, levei com um microfone e uma câmara em cima. Uns dias depois, ainda pálido do esforço, outra maratona para testar a minha elasticidade psicológica. Uma sessão de fotos, daquelas de fazer pose, endireitar as costas e colocar a mão num ângulo estranho. Completamente zonzo dei uma entrevista de duas horas em que não recordo nada do que disse. Há dias estamparam-me numa revista, eu sentadinho numa cadeira como se fizesse aquilo todos os dias, e agora é a vez de passar em loop na televisão umas incoerências que disse quando não estava no pleno das minhas faculdades. Graças a deus, algumas vezes passa a horas estranhas. Esta noite passou às três e meia da manhã, não que estivesse acordado para tal evento, sei porque a caixa de mensagens do meu telemóvel está cheia e pelo menos metade fazem questão de dizer as horas em que me viram a fazer tristes figuras. E isto a propósito da constatação, uma vez mais, de que não fui feito para isto, não podemos ir contra a nossa natureza. A Agustina é que tem razão, o sucesso é menos importante que um vestido bonito. 


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afonso ferreira às 00:34 | link do post | comentar
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Segunda-feira, 19 de Julho de 2010



afonso ferreira às 23:28 | link do post | comentar | ver comentários (4)
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Desvendado o enigma do ovo e da galinha.

 



afonso ferreira às 10:42 | link do post | comentar | ver comentários (1)
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Domingo, 18 de Julho de 2010

 

Mais do que uma boa história, uma forma magistral de a contar. 

Jorge Leitão Ramos, Expresso, 17 Julho

 

 

A sério? Não senti nada. Para um filme do Roman Polanski esperava muito mais do que este chorrilho de clichés. Além de não dignificar em nada a minha profissão. Quando eu deslindo intrigas internacionais, para mais envolvendo a CIA, não fico por buscas no google. Uma oportunidade perdida para uma abordagem mais profunda do estado da política, os tentáculos do poder e evocar a figura de Tony Blair e a sua intervenção na Guerra do Iraque. Nem vale a pena comentar que qualquer comparação do argumento do filme à situação actual do realizador é no mínimo confrangedora. Não bastasse o argumento ser uma sucessão de bocejos (tal como o manuscrito da biografia, peça central de todo o argumento) a escolha de actores é uma piscadela de olhos descarada ao público feminino. E não pensem que falo apenas de Ewan McGregor ou Pierce Brosnam, essas carinhas larocas perdem toda a relevância quando sabemos que o terceiro papel foi atribuído a Kim Cattrall. O Francisco Ferreira no Expresso a partir de uma entrevista a Ewan McGregor chega à conclusão que Polanski acertou em cheio no casting para o seu ghost [writer] mas não menciona nem uma única vez esta evidência no casting. As regras do jogo mudaram e nisso Polasky é um mestre de cerimónias. Numa assentada situou o filme na América e fabricou uma absolvição colectiva inconsciente. É um tiro à opinião pública feminina americana que vai ser preciosa no seu percurso se tudo o mais falhar. A julgar pelas quatro estrelas atribuídas no Expresso parece que funciona, em duas páginas de crítica nem uma menção ao facto de Polasky ter saído da prisão domiciliária e escapado à extradição para os EUA na passada segunda-feira e a verdadeira mensagem do filme. Jornais para quê? 


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afonso ferreira às 20:25 | link do post | comentar | ver comentários (5)
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afonso ferreira às 00:58 | link do post | comentar | ver comentários (2)
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A presença dela reorganiza e faz brilhar todas as minhas partículas a nivel celular.*

 

* Lido num chat esta noite. A distância não existe quando as histórias acabam bem.



afonso ferreira às 00:02 | link do post | comentar | ver comentários (2)
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Sábado, 17 de Julho de 2010

 

Um tipo passa a vida a desviar-se de arranjinhos amorosos, mas por mais que seja um ás na arte da fuga, de tempos a tempos acaba sempre por fazer figuras tristes. Por conseguinte, um tipo nunca acredita neste tipo de amor instantâneo, bom para os dias que correm mas ele também nunca correu ao sabor dos dias, portanto está tudo bem. Até ao dia em que apanha com um arranjinho que o deixa de cara à banda e a suspirar por mais. Este tipo está feito ao bife. Esse dia foi ontem. Este tipo sou eu.



afonso ferreira às 20:47 | link do post | comentar | ver comentários (6)
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Por contingências profissionais várias tenho andado distraído da internet, salvo os poucos posts aqui deixados. Hoje ao fazer a ronda habitual fiquei esmagado pela falta de novidade. As guerrinhas continuam, a falta de vergonha na cara também, a ausência de ideias é confrangedora, os post eu-digo-isto-mas na realidade-quero-é-atenção-e-dar-um-recado abundam. Não se pode implodir isto e começar outra vez? Estamos a precisar de sangue novo.


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afonso ferreira às 02:53 | link do post | comentar | ver comentários (2)
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Sexta-feira, 16 de Julho de 2010

Acabei de apanhar em cheio numa mercearia do bairro com corjets a 1,49€.



afonso ferreira às 21:17 | link do post | comentar | ver comentários (1)
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Ainda haverei de encontrar explicação por este fascínio pelas entranhas. Subir a longa escada em caracol até chegar ao quarto dos frescos, percorrer os corredores, sentir a pedra nas mãos, a rugosidade das paredes, a cozinha, a casa das máquinas. Sou capaz de fechar os olhos e descrever casas que percorri há vinte anos. 



afonso ferreira às 19:23 | link do post | comentar | ver comentários (8)
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Quinta-feira, 15 de Julho de 2010

 

É da marca Pepsodent, a caixa de cartão é verde e tem uma ilustração com meio limão, aloé vera e outra planta que parece hortelã. À primeira escovadela fiquei repentinamente a olhar para a minha imagem no espelho, a escova submersa na gruta da boca, o cabo na mão suspensa pela surpresa. Ergui uma sobrancelha e continuei a escovar. Depois fui ler as letras miudinhas como nos contractos e fiquei na mesma. Não que seja assim tão burro que não saiba ler, mas a minha inteligência também não chega para decifrar uma língua estrangeira que aposto um membro da família como não é europeia. As únicas palavras que decifro é Pepsodent e herbal, o resto veio da Torre de Babel. Eu nunca tinha olhado com atenção para uma pasta dentífrica na minha vida. Nunca tinha franzido os olhos, as pestanas a encostarem umas nas outras, para conseguir ler as letras corpo dois dos ingredientes. Mas, na verdade, quando faço dos olhos um risco, não estou a ver a pasta, estou a olhar para a minha vida e a pensar no que é que aconteceu para andar a comprar pastas de dentes à uma da manhã. A essa hora devia estar a beber copos, a fazer sexo, a ler ou a dormir. Qualquer coisa, tudo menos compras de primeira necessidade. Esta pasta é a prova e o sabor da minha falência enquanto adulto.



afonso ferreira às 01:29 | link do post | comentar | ver comentários (7)
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Quarta-feira, 14 de Julho de 2010

Seis páginas no Financial Times sobre um país que não conheço.



afonso ferreira às 12:09 | link do post | comentar
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O meu coração é de esquerda, o cérebro de direita.



afonso ferreira às 11:15 | link do post | comentar | ver comentários (1)
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Terça-feira, 13 de Julho de 2010

Seis meses a olhar para o mesmo focinho é muito tempo. Este blog está a precisar urgentemente de um novo template.



afonso ferreira às 12:54 | link do post | comentar | ver comentários (11)
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Não vou a festas para as quais não sou convidado nem entro em guerras que não são minhas.



afonso ferreira às 12:27 | link do post | comentar
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Uma reunião em que todos os presentes estão absolutamente de acordo é uma reunião perdida.

Albert Einstein



afonso ferreira às 04:53 | link do post | comentar
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Muito se tem falado e escrito sobre os últimos acontecimentos na área da cultura. A uma situação por si só já muito precária juntou-se uma ministra autista e desvairada. A cada declaração o caixão desce mais um pouco e lá dentro estamos todos nós, a cultura, a crise, os problemas do sector. A maior parte da minha vida profissional trabalhei ou estive envolvido na área da cultura. Poderia fazer várias considerações com conhecimento de causa mas não seriam pertinentes neste momento em que o assunto está na ordem do dia. Sempre que há um corte no dinheiro atribuído ao sector, ou os subsídios atrasam, é desastre certo. Um belo exemplar de pescadinha-com-rabo-na-boca – semelhante às outras áreas, pagam sempre os pequeninos e é por o sector ser feito na sua essência de pequeninos que é tão frágil. Os pequeninos que trabalham a recibos verdes, que são despedidos de um dia para o outro, que recebem muito abaixo da tabela comparando com os profissionais de outras áreas.

 

Sou contra a prática de estagiar desde sempre. Muito antes de ser um estatuto massificado. Parece-me a forma mais bárbara de escravidão actual. Exceptuando algumas áreas profissionais onde penso que um estágio seja realmente necessário antes de entrar na vida profissional activa – medicina, etc – a maior parte dos sectores que engordam à conta desse tipo de escravidão deveria ter consequências legais pesadas. Em todos os sítios onde trabalhei hasteei a minha bandeira. Recusei-me a fazer entrevistas para estagiários, emiti a minha opinião em reuniões com as direcções, fiz finca-pé para que atribuíssem salários a quem estava há mais de três meses a trabalhar de borla. Umas vezes ganhei, outras coloquei o meu próprio emprego em perigo com discussões intermináveis, a maior parte das vezes semeei inimigos. E não foram poucos. Isto não quer dizer que a maioria das pessoas seja a favor desse tipo de exploração, mas tão-só que é tão habitual que já não colocam em causa. O maior problema de todos é sempre a indiferença. 

 

No entanto indigna-me que os organismos culturais que hoje levantam a voz contra a ministra sejam eles compostos a maior parte das vezes por estagiários ou profissionais a receberem pela tabela mínima e sem condições. A desculpa da crise, da precariedade do sector e mais ministra, menos ministra, não desculpa uma prática abaixo de cão. No fundo, o que as notícias dos últimos dias permitem antever com clarividência é que mais situações destas vão surgir com desculpas cada vez mais refinadas – a crise, a falta de dinheiro, a ministra que é saloia, o governo que não lembra ao menino jesus, e todos nós que não temos consciência cívica. E porque não quero com este post iniciar uma discussão que já estou careca de praticar faço-vos um convite – uma razia aos anúncios de emprego com o que escrevo presente. 



afonso ferreira às 01:17 | link do post | comentar
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