Terça-feira, 31 de Agosto de 2010

Pensar nunca fez mal a ninguém.



afonso ferreira às 23:56 | link do post | comentar | ver comentários (2)
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Há um calor asfixiante na cidade e tanto por fazer. Olho para o calendário e parece-me demasiado curto o tempo. No chat enviam-me mensagens, há quem compre roupa a preparar a chegada da neve, e, no entanto, aqui estou, consternado a dar sapatadas indolentes na canícula. Esta na altura de sair. Debaixo do céu estrelado ajeitam-se as cadeiras para a sessão. O jardim está arranjado e sinto dificuldade em relembrar a tristeza poética da decadência de outrora. Foi para isto que andei a trabalhar nas eleições, é bonito, mas parece-me tão pouco. Olho para os aspersores, a relva a ser alimentada em jactos circulares, e calculo quantas arruadas saíram-me do pêlo. O filme inicia e portamo-nos todos bem, arrumadinhos nas cadeiras e ninguém atende o telefone nem acende cigarros. Somos crescidos e gostamos de cinema francês. Na película a mulher está confusa, uma desarrumação mental circular como a água a cair na relva. A vida é uma sucessão de aspersores e ficção nos intervalos. 



afonso ferreira às 04:44 | link do post | comentar
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afonso ferreira às 00:09 | link do post | comentar
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Segunda-feira, 30 de Agosto de 2010

 

Acordei sobressaltado com o telefone a tocar. Atendi a tua chamada a disfarçar a insónia que assaltou a noite e só deu tréguas ao amanhecer. Estavas contente, a voz firme, a perderes-te em pormenores, quem te ouvisse não desconfiava que carregas a doença às costas. Desfilavas eventos e histórias e eu fingia estar desperto quando os sonhos ainda cavalgavam sobre a realidade. O ouvido aberto, os olhos fechados, o corpo adormecido. Estavas tão contente, eles tinham chegado à cidade e já os tinhas encontrado. Vieram visitar-te e sentaram-se a uma mesa a partilhar conversa e comida e agora só te importas com isto, é só a isto que chamas vida, o resto que vá à merda. Tu falavas, eu ouvia, e vindo do sonho a imagem surgiu. Os dois juntos na falésia, a criança ao lado, em baixo a cidade, ao fundo o mar. 



afonso ferreira às 23:35 | link do post | comentar
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As acções de cada pessoa são boas ou más consoante a maneira como as outras as comentam.
Camilo Castelo Branco (1825-1890) in Taxi TV



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afonso ferreira às 16:34 | link do post | comentar
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A ver se nos entendemos de uma vez por todas. Como já tive oportunidade de demonstrar algumas vezes no curto espaço de vida deste blog, provocações patéticas e ataques rasteiros esbarram num muro de silêncio. Nunca gostei de pessoas sem espinha dorsal, se querem brincar é melhor escolherem outro recreio.

 

Adenda: Já agora, antes de atacarem, certifiquem-se bem se as minhas palavras têm a vossa pessoa como destinatário. O mais certo é não terem. Nunca têm.

 




afonso ferreira às 01:23 | link do post | comentar | ver comentários (2)
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Domingo, 29 de Agosto de 2010

O que há em mim é sobretudo cansaço

Não disto nem daquilo,

Nem sequer de tudo ou de nada:

Cansaço assim mesmo, ele mesmo,

Cansaço.

 

Álvaro de Campos



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afonso ferreira às 15:51 | link do post | comentar | ver comentários (3)
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Rua da Vitória, via Sorumbático.

 



afonso ferreira às 02:48 | link do post | comentar
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Ao que se diz, Passos Coelho mora em Massamá. O facto pertence à mesma família de uma fotografia de José Sócrates, adolescente e com fato mal amanhado. Outra referência ainda mais antiga: as meias brancas nos tornozelos dos ministros dos primeiros governos cavaquistas. Minto, este último facto era diferente: o finório semanário Independente assumia-o para criticar a "falta de classe" da gente à volta de Cavaco. Como este acabou por viver mais tempo que o jornal, a pedantice social precaveu-se nas críticas que se seguiram. Ninguém chama suburbano a Passos Coelho ou provinciano a Sócrates abertamente. Quem traz os casos à baila limita-se a abanar com a morada de um e o fato de outro a ver se servem de isca. Como se fato e morada indiciassem um destino. Ferreira Fernandes, claro.



afonso ferreira às 02:28 | link do post | comentar
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Ia escrever isto mas lembrei-me que já o tinha feito em tempos.

 

Decidir quando e como se cumprimenta ou não diz muito de nós. Há três motivos que levam a fingir que não se vê alguém e a passar ao largo: alguém insuportavelmente irritante para o qual não há pachorra e tentamos desta forma evitar um sofrimento, sermos míopes e não vermos um caracol ou cobardia social.




afonso ferreira às 01:15 | link do post | comentar
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Sábado, 28 de Agosto de 2010



afonso ferreira às 03:43 | link do post | comentar
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O piano morava na cidade longínqua numa sala com vista para os outros prédios. Eu nunca o visitei na casa dos pátios onde arrancavam todas as ervas que cresciam como se existisse horror ao verde, uma estranha perturbação à ordem estabelecida. Em vez disso foi o piano que viajou, terras e terras, e aportou na cidade, um velho resistente, pesado e maciço. Foram necessários quatro homens para o carregarem pelos andares antigos forrados a carpete vermelha subindo degrau a degrau. Pegaram-lhe a uma só força, como quem carrega um elefante, e subiram até ao céu sem o pousar uma única vez. Agora pela janela da nova sala vê três igrejas alinhadas a adornar a colina. Vê árvores e antenas nos telhados, o eléctrico, o vaivém da nova cidade. Quando entro no prédio ouço-o a deslizar pelo estuque, a encher a caixa de ar das escadas, a sair pela clarabóia do telhado, a soar nas canalizações dos vizinhos. 



afonso ferreira às 03:07 | link do post | comentar
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Sexta-feira, 27 de Agosto de 2010

 

Se há uma característica que grassa na minha família é proclamarmos aos quatro ventos que vamos morrer e nunca morrermos. Ainda mal andava e já sabia que um dia iríamos todos finar. Ontem ligaste a dizer que teria de viajar, a matriarca mandou recado a dar a novidade que ia morrer e que tinha os ouros à minha espera. Eu ri-me e disse que os tesouros podiam esperar. Há trinta anos que ouço isto. Quando não gostavam de uma roupa em particular que envergasse era certo que me pediam para ao menos não usar isso no funeral. O funeral era aquela coisa que nunca acontecia mas que referíamos constantemente. Isso? Isso já não é para mim, que eu morro não tarda. Se é preferível ser cremado ou enterrado é uma dúvida recorrente nas conversas e mudamos de opinião consoante o ano. Agora, a maioria quer ser cremada. Mas pode ser que para o ano que vem estejamos a discutir qual é o cemitério mais bonito. O pedido vê lá se não esqueces isto quando eu morrer também é frequente e serve para tudo. Vê lá se não esqueces a chave que eu depois morro e já não posso abrir a porta. E depois continuamos todos vivos só para chatear. Por isso não estou a compreender o motivo para estar neste hospital a ver-te morrer aos bocadinhos. Como se não soubesses que isto é uma grande fita, uma maneira de viver. 



afonso ferreira às 18:22 | link do post | comentar | ver comentários (5)
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Enviou-me uma mensagem em tom ligeiro a perguntar se andava pela cidade. Aceitou prontamente o meu convite para um copo ao fim do dia. Na esplanada pedimos uns whiskys, a pele a respirar finalmente com a brisa fresca vinda do rio. O meu amigo é pessoa de feitio apaziguado, mais de ouvir do que cair na tentação de preencher o ar com a sua pessoa. Quer saber como estou, quer ouvir-me falar, mas não me sinto para grandes conversas, ultimamente não tenho histórias muito alegres para contar e suspeito que o meu amigo não contactou-me por acaso. Mas, subitamente, dou por mim a contar a história das finanças e do fiscal que andava a ligar-me há umas semanas. Uma história verdadeiramente recambolesca que remota quase há uma década. Precisei de algum tempo para perceber a extensão da investigação e de que forma tinha chegado a mim, visto não ser eu o alvo nem em todo este tempo ter tido qualquer espécie de relação com o suspeito. A verdade é que o inspector precisava de ajuda. Estava num beco sem saída. Como num truque de magia senti-me a interpretar uma personagem dos romances do José Cardoso Pires. O inspector lagarto, já o via do outro lado do telefone a coçar a barba, a cinza a cair em cima dos papéis do dossier. Agora a melhor parte. O inspector não sabia, e ainda eu estou para descobrir que linhas misteriosas colocaram este homem a falar comigo, mas ligou talvez à única pessoa que realmente o poderia ajudar. Um pequeno documento antigo sem importância nenhuma com o meu nome e a partir daí começou a saga até encontrar-me. Todas as pessoas têm algo único e no meu caso é a memória. O que o inspector procurava em desespero e não sabia era uma memória que conseguisse juntar factos, histórias e caras.

 

O meu amigo está triste, não sei se já o disse. Trabalhou muito durante demasiado tempo e um dia percebeu consternado que era altura de mudar de direcção. Acumulou a dose suficiente de azares, cansaço e falta de reconhecimento para ter todos os elementos necessários para uma mudança verdadeiramente eficaz e desejada. Estava nesse impasse, a planear e a decidir o novo rumo, quando as coisas precipitaram-se no caminho oposto. Ao querer fugir dos compromissos acabou a comprometer-se com quem não devia, em vez de salvar-se decidiu resgatar quem não tinha salvação e quando devia colocar em prática a experiência adquirida cometeu erros com consequências catastróficas. Pior de tudo, decidiu que era no amor que talvez estivesse algumas respostas quando era certo ser a pior aposta. Adoeceu gravemente e passou umas férias no inferno. A recuperação foi feita lentamente, um dia de cada vez, noite após noite, e lentamente foi subindo a corda. Contou nessa altura com o apoio de pessoas em quem depositou confiança. Mas quando estava quase, quase a chegar ao cimo, os mesmos que o tinham puxado largaram a corda sem aviso. A segunda queda não foi bonita. Deixou mazelas, ossos partidos, escoriações. Desta vez parece não haver corda que o salve, a memória da queda não lhe permite continuar.

 

(cont.)

 




afonso ferreira às 04:29 | link do post | comentar | ver comentários (2)
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Quinta-feira, 26 de Agosto de 2010

 

Enviado pelo Parece mal.



afonso ferreira às 14:22 | link do post | comentar | ver comentários (2)
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Desde 2004 já foram realizadas despesas de 116 milhões de euros, uma taxa de execução de 68%. Mas os projectos e as entidades apoiadas não são públicos. A partir de 2011, as novas regras vão exigir mais transparência.



afonso ferreira às 14:17 | link do post | comentar
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Quarta-feira, 25 de Agosto de 2010

 

Ontem à noite, no clube que frequento às terças-feiras, havia riçóis e uma senhora que partia o gelo das caipirinhas com um martelo.



afonso ferreira às 12:01 | link do post | comentar | ver comentários (3)
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Terça-feira, 24 de Agosto de 2010

 

Once someone has had a panic attack, for example, while driving, shopping in a crowded store, or riding in an elevator, he or she may develop irrational fears, called phobias about these situations and begin to avoid them. Eventually, the pattern of avoidance and level of anxiety about another attack may reach the point at which the mere idea of doing things that preceded the first panic attack triggers future panic attacks, resulting in the individual with panic disorder being unable to drive or even step out of the house. 



afonso ferreira às 13:33 | link do post | comentar
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Diz-me a ordem dos canais na tua televisão e dir-te-ei quem és.

Da série pequenas descobertas domésticas.



afonso ferreira às 02:36 | link do post | comentar | ver comentários (1)
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Não valia a pena ter-se preocupado tanto. O sol havia acabado de sumir-se no oceano quando o homem que tinha um barco surgiu no extremo do cais. Trazia um embrulho na mão, porém vinha sozinho e cabisbaixo. A mulher da limpeza foi esperá-lo à prancha, mas antes que ela abrisse a boca para se inteirar de como lhe tinha corrido o resto do dia, ele disse, Está descansada, trago aqui comida para os dois, E os marinheiros, perguntou ela, Não veio nenhum, como podes ver, Mas deixaste-os apalavrados, ao menos, tornou ela a perguntar, Disseram-me que já não há ilhas desconhecidas, e que, mesmo que as houvesse, não iriam eles tirar-se do sossego dos seus lares e da boa vida dos barcos de carreira para se meterem em aventuras oceânicas, à procura de um impossível, como se ainda estivéssemos no tempo do mar tenebroso, E tu, que lhes respondeste, Que o mar é sempre tenebroso, E não lhes falaste da ilha desconhecida, Como poderia falar-lhes eu duma ilha desconhecida, se não a conheço, Mas tens a certeza de que ela existe, Tanta como a de ser tenebroso o mar, Neste momento, visto daqui, com aquela água cor de jade e o céu como um incêndio, de tenebroso não lhe encontro nada, É uma ilusão tua, também as ilhas às vezes parece que flutuam sobre as águas, e não é verdade, Que pensas fazer, se te falta a tripulação, Ainda não sei, Podíamos ficar a viver aqui, eu oferecia-me para lavar os barcos que vêm à doca, e tu, E eu, Tens com certeza um mester, um ofício, uma profissão, como agora se diz, Tenho, tive, terei se for preciso, mas quero encontrar a ilha desconhecida, quero saber quem sou eu quando nela estiver, Não o sabes, Se não sais de ti, não chegas a saber quem és, O filósofo do rei, quando não tinha que fazer, ia sentar-se ao pé de mim, a ver-me passajar as peúgas dos pajens, e às vezes dava-lhe para filosofar, dizia que todo o homem é uma ilha, eu, como aquilo não era comigo, visto que sou mulher, não lhe dava importância, tu que achas, Que é necessário sair da ilha para ver a ilha, que não nos vemos se não nos saímos de nós, Se não saímos de nós próprios, queres tu dizer, Não é a mesma coisa. O incêndio do céu ia esmorecendo, a água arroxeou-se de repente, agora nem a mulher da limpeza duvidaria de que o mar é mesmo tenebroso, pelo menos a certas horas. Disse o homem, Deixemos as filosofias para o filósofo do rei, que para isso é que lhe pagam, agora vamos nós comer, mas a mulher não esteve de acordo, Primeiro, tens de ver o teu barco, só o conheces por fora, Que tal o encontraste, Há algumas bainhas das velas que estão a precisar de reforço, Desceste ao porão, encontraste água aberta, No fundo vê-se alguma, de mistura com o lastro, mas isso parece que é próprio, faz bem ao barco, Como foi que aprendeste essas coisas, Assim, Assim como, Como tu, quando disseste ao capitão do porto que aprenderias a navegar no mar, Ainda não estamos no mar, Mas já estamos na água, Sempre tive a idéia de que para a navegação só há dois mestres verdadeiros, um que é o mar, o outro que é o barco, E o céu, estás a esquecer-te do céu, Sim, claro, o céu, Os ventos, As nuvens, O céu, Sim, o céu.

 

Conto da ilha desconhecida, José Saramago



afonso ferreira às 00:37 | link do post | comentar | ver comentários (3)
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Segunda-feira, 23 de Agosto de 2010

A uma filha-da-putice deve-se responder com outra igual ou de calibre superior?



afonso ferreira às 02:34 | link do post | comentar | ver comentários (4)
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Acordar cedo no silêncio do estuque. Atravessar a cidade em direcção ao sul. Chegar ao mar na certeza dos dias perfeitos. Deitar o corpo na areia a observar os homens-pássaro a riscar o céu. Sentir o dia a avançar na fúria da água fria. Abraçar a noite a dançar a dois numa roda de choro. 


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afonso ferreira às 01:43 | link do post | comentar
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Sábado, 21 de Agosto de 2010

 

Andando, andando, o homem chegou ao porto, foi à doca, perguntou pelo capitão, e enquanto ele não chegava deitou-se a adivinhar qual seria, de quantos barcos ali estavam, o que iria ser o seu, grande já se sabia que não, o cartão de visita do rei era muito claro neste ponto, por conseguinte ficavam de fora os paquetes, os cargueiros e os navios de guerra, tão-pouco poderia ser ele tão pequeno que resistisse mal às forças do vento e aos rigores do mar, o rei também havia sido categórico neste ponto, Que navegue bem e seja seguro, foram estas as suas formais palavras, assim implicitamente excluindo os botes, as faluas e os escaleres, os quais, sendo bons navegantes, e seguros, conforme a condição de cada qual, não tinham nascido para sulcar os oceanos, que é onde se encontram as ilhas desconhecidas. (...) O capitão veio, leu o cartão, mirou o homem de alto a baixo, e fez a pergunta que o rei se tinha esquecido de fazer, Sabes navegar, tens carta de navegação, ao que o homem respondeu, Aprenderei no mar. O capitão disse, Não to aconselharia, capitão sou eu, e não me atrevo com qualquer barco, Dá-me então um com que possa atrever-me eu, não, um desses não, dá-me antes um barco que eu respeite e que possa respeitar-me a mim, Essa linguagem é de marinheiro, mas tu não és marinheiro, Se tenho a linguagem, é como se o fosse. O capitão tornou a ler o cartão do rei, depois perguntou, Poderás dizer-me para que queres o barco, Para ir à procura da ilha desconhecida, Já não há ilhas desconhecidas, O mesmo me disse o rei, O que ele sabe de ilhas, aprendeu-o comigo, É estranho que tu, sendo homem do mar, me digas isso, que já não há ilhas desconhecidas, homem da terra sou eu, e não ignoro que todas as ilhas, mesmo as conhecidas, são desconhecidas enquanto não desembarcarmos nelas, Mas tu, se bem entendi, vais à procura de uma onde nunca ninguém tenha desembarcado, Sabê-lo-ei quando lá chegar, Se chegares, Sim, às vezes naufraga-se pelo caminho, mas, se tal me viesse a acontecer, deverias escrever nos anais do porto que o ponto a que cheguei foi esse, Queres dizer que chegar, sempre se chega, Não serias quem és se não o soubesses já. O capitão do porto disse, Vou dar-te a embarcação que te convém, Qual é ela, É um barco com muita experiência, ainda do tempo em que toda a gente andava à procura de ilhas desconhecidas, Qual é ele, Julgo até que encontrou algumas, Qual, Aquele. 

 

José Saramago



afonso ferreira às 23:46 | link do post | comentar
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... é um intervalo de mar.


Ilha do Sal, fotografia de c. henrique


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afonso ferreira às 22:52 | link do post | comentar | ver comentários (1)
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O cansaço era tanto que vinha a dormir de olhos abertos arredado do mundo. Só despertei quando travámos com violência e ouvi o taxista a vociferar. Em contramão, directo a nós, outro carro. Ao volante, um taxista idoso a transportar uns estrangeiros. O meu taxista reconhece o outro. Trabalha noite e dia sem descanso. Quando estaciona o carro nas praças de táxis adormece sempre. Ao contar a história do outro homem acaba por revelar um pouco a sua. Nos dias que correm de feição só trabalha catorze horas e descansa as restantes. Não sabe como é que o outro está vivo e eu penso que é um mistério não estarmos todos mortos. Eu pergunto aos meus botões que problemas corroem aquele homem que justifiquem no fim da vida trabalhar até morrer. Um tipo anda todos os dias em estradas traiçoeiras e, pior ainda, aviões. Eu, que não tenho medo nenhum de subir às alturas, dou por mim a pensar muitas vezes que talvez tenha alguma razão quem defende que se deus nos quisesse a voar tinha oferecido um par de asas. E, vai daí, uma pessoa vai pensando na morte, ou pelo menos que a devia evitar, e nos aviões que caem e nas tragédias de sempre, terramotos, cancros e afins, e quando menos espera pode ser morto a dois passos de casa por um homem que não dorme.


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afonso ferreira às 05:05 | link do post | comentar | ver comentários (1)
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Sexta-feira, 20 de Agosto de 2010

 

É possível que a amizade seja alimentada pela observação e pela conversação, mas, quanto ao amor, ele surge e é alimentado pela interpretação silenciosa... O ser amado exprime um mundo possível que nos é desconhecido... e que precisa de ser decifrado.

Gilles Deleuze, Proust e os Símbolos



afonso ferreira às 13:30 | link do post | comentar | ver comentários (3)
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Uma vida a assistir à burocracia da profissão. Os processos, os clientes, a morosidade da justiça, a rapidez da injustiça. Uma vida inteira a assistir a várias vidas. Quando foi a minha vez de avançar tinha à minha espera várias observações – a rapidez no discurso, a teimosia, os olhos abertos – enfim, devias seguir direito, foi o veredicto. Pois, uma outra vida aqui à tua espera, não te faltará ocupação, tanta coisa por fazer. Eu disse que não era para mim, dei meia volta, segui outro rumo, os processos a abarrotar nas prateleiras e eu a bater a porta. Não imaginava morte em vida mais absurda do que enferrujar no meio da burocracia, o que desejava para mim era o oposto do que ofereciam. Um dia dei por mim no tribunal à porta de um julgamento. Mais precisamente o meu. O juiz, as testemunhas, a outra parte. E eu à espera do meu advogado que não aparecia. A porcaria da IC19 e tal. Eu à porta, os segundos a caírem, a urgência de tomar decisões. Eu à porta a dizer que se lixe. Entrei na sala, a porta fechou, aquilo começou e quando foi preciso defendi-me sozinho, falei com o juiz, puxei pela memória, concentrei-me no ali e agora. Saí-me bem, ganhei o julgamento, humilhei o outro advogado e ouvi do juiz uma frase que me ficou para a vida. Nunca mais voltei a estar num julgamento mas ultimamente lembro-me muito dessa manhã. Posso não ter seguido essa vida mas a metodologia corre-me no sangue. Principalmente a paciência. É precisa muita para juntar prova a prova, arquivar os factos e no fim esperar pacientemente pelo julgamento. As sentenças justificam os caminhos que tomamos.



afonso ferreira às 03:15 | link do post | comentar
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Quinta-feira, 19 de Agosto de 2010

Viajar também pode ser isto – ter tempo para ler. Passar horas a viajar na ficção, desbastar a pilha de letras que espera pacientemente pelos dias mais longos. Com o magnífico Apocalipse dos trabalhadores de Valter Hugo Mãe fui a Bragança. Não satisfeito decidi atacar O Remorso de Baltazar Serapião do mesmo autor e mergulhar no português mediaval. Confesso que há muito tempo não esbarrava num livro tão forte e bem construído. Depois segui para a África do Sul, Cidade do Cabo, anos 70, com Verão de J. M. Coetzee. Ainda o estou a mastigar sem conseguir decidir se é um livro inteligente mas enfadonho ou só enfadonho. Atravessei o atlântico e aterrei em Nova Iorque com o Perturbações atmosféricas de Rivka Galchen (este livro obrigou-me a pedir ajuda na livraria ao Irmão Lúcia correndo o risco de ser brindado com um post humilhante com a minha interpretação fonética do nome da autora). Se a crítica prometia uma revelação e uma mistura bem conseguida entre ficção e ciência, o livro oferece demasiadas distracções e recursos estilísticos para permitir-me dar uma nota elevada. Atravesso novamente o oceano para a versão de Pedro Mexia do Agora a sério de Tom Stoppard. Casais, rupturas, teatro. Não fiquei muito emocionado, de qualquer forma fiquei com pena de não ter visto a peça no Teatro Aberto. Do norte sigo viagem para o sul com A feira dos assombrados de José Eduardo Agualusa passado em Angola num rio que fica infestado de cadáveres. De tal forma envolvente que não duvido que cheirar as páginas impressas deste livro pode ter sido o mais próximo que estive do inesquecível cheiro de África. Por último, uma descida aos infernos no gueto judaico na Polónia com os Anagramas de Varsóvia de Richard Zimler que, infelizmente, revelou ser uma desilusão a todos os níveis. 


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afonso ferreira às 01:07 | link do post | comentar | ver comentários (4)
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Quarta-feira, 18 de Agosto de 2010



afonso ferreira às 23:30 | link do post | comentar
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Todo o paraíso justifica o seu inferno. Por baixo do céu sem nuvens e das águas cristalinas vive o inspector da judiciária com o cigarro pendurado a queimar o bigode à caça dos pássaros-correio na rota do país irmão. Entre os fundos de malas e o aeroporto vai colocando pássaros raros na gaiola. Neste inferno aquático há naufrágios e chamas no fundo do mar. De escafandro e bomba de oxigénio descem com regras precisas velhos sonhos do passado. O instrutor sonha com o mundo perfeito enquanto aproxima-se do fundo do paraíso – câmaras de gás, tortura psicológica e as cabras que estoirou com a G3 na outra ilha. Que holocausto? perguntavam os que não venceram a guerra e ele dava a resposta certa como cão de fila bem treinado. Por momentos a revolução não aconteceu, as colónias vivem na palma da sua mão. Eu não tenho dúvidas, não fossem as espingardas com cravos estaria atrás das grades a viver o sonho deste homem. No inferno construíram o ghetto, o bairro de lata enferrujado que julguei abandonado. Das chapas retorcidas nem um som. Mas timidamente crianças saem à rua a acenar, há roupa estendida ao vento à espera do sol, vejo fumo numa chaminé. Um bairro com ruas e chapas de zinco cravado no meu próprio inferno privado. No inferno pode-se contar com cortes de luz e falta de água potável. Não existem hospitais nem universidades. Há ameaças várias e meninas abandonadas que vão parir às outras ilhas. No paraíso com pés de chumbo um bom passaporte para voar é seduzir uma mulher ocidental incauta. Ao jantar o homem importante é o centro da mesa. Ouvimos com esforço, há festa no palco. O homem importante fala muito e conta histórias diversas. Faz pausas no discurso, como um apresentador de espectáculo, para arrebitar a curiosidade e criar suspense. Conta a ameaça de morte que recebeu abrindo a camisa e desafiando a cortarem quatro cabeças em vez de uma. Fala das tempestades de areia que obrigam a isolar tudo até à última frincha e da exportação de tornados e emigrantes. O homem importante enfrenta ameaças de morte mas não prescinde da pulseira tucson em prol do equilíbrio pessoal. 


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afonso ferreira às 13:19 | link do post | comentar | ver comentários (2)
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