Sexta-feira, 30 de Março de 2012

Quando é que perdi a capacidade de olhar? Chegas e dizes o óbvio. As palmeiras engoliram a cidade, já não se vê a outra colina da janela, só uma nesga, os anos passaram e as árvores cresceram e engoliram-me, à cidade e a mim, e eu não vi por estar demasiado ocupado a olhar para o chão. Relembras-me histórias, pequenos eventos. Não recordo nada, apenas uns farrapos dispersos. Eu, que tenho memória de lince. Atalhas caminho e vais directo ao assunto. O que penso de estabelecer um compromisso? Percebo que estou completamente submerso em atavismos e que foi tudo duríssimo. Sou um náufrago, vivo mas ainda à deriva, incapaz de ver terra.



afonso ferreira às 14:34 | link do post | comentar | ver comentários (3)
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Conhecer os dois novos rebentos na grande família de amigos, almoçar com todo o tempo do mundo, resolver problemas, ler em salas de espera, passear pelas colinas, visitar o miradouro e olhar a cidade, abraçar amigos, ouvir os outros a discorrer sobre poesia, jantar a correr, ir ao cinema, apanhar chuva, escrever, escrever, escrever.



afonso ferreira às 01:15 | link do post | comentar | ver comentários (1)
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Quinta-feira, 29 de Março de 2012

Primeiro foi a pasta de imagens que desapareceu misteriosamente do meu computador. Desde ontem a 'edição avançada' dos posts no blogue pifou o que significa que qualquer tentativa de colocar imagens ou paginar o texto é imediatamente gorada. Os últimos links aparecem como batatas disformes em bold. O único vídeo que consegui colocar à pata (perceber html ainda me vai salvar a vida) atropela os links. Enfim. Vou perder tempo com isto? Trocar emails com a equipa técnica do Sapo? Apanhar uma bebedeira com um amigo compreensivo que tenha passado pelo mesmo em tempos? Não. Não vou fazer absolutamente nada. Zero. Rien. O blog vai ficar um circo até que apareça operacional por artes mágicas. De permeio vou tentar aplicar a mesma displicência a outras áreas da minha vida. O universo que trabalhe que eu estou cansado e tenho coisas importantes a realizar.



afonso ferreira às 02:56 | link do post | comentar | ver comentários (2)
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Quarta-feira, 28 de Março de 2012

'Agora volto a perguntar, como os gregos, quando alguém morria: tinha paixão? Sim, mas a paixão era a sua fronteira. Uma parte ia esgotar a outra e antes disso ele salvou-se.'

 

E a noite roda, Alexandra Lucas Coelho



afonso ferreira às 23:48 | link do post | comentar
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Os turistas permaneceram na rua de baixo, diante da catedral medieval, nessa colina de Lisboa onde surge o castelo de São Jorge. Vocês tomaram uma iniciativa, já que a catedral (Sé, em português, contração do latim “sede”, porque também era a sede episcopal) e o castelo de São Jorge são dois lugares obrigatórios para o visitante, dois símbolos da cidade, entre os poucos monumentos medievais poupados pelo terrível terremoto que devastou Lisboa em 1755. Mas provavelmente vocês os viram, sozinhos, ou com seus companheiros eventuais de viagem, ou irão vê-los daqui a pouco, porque não se pode e nem se deve negligenciar os monumentos obrigatórios de uma cidade. Aqui, ao contrário, na Rua da Saudade, a poucos metros da catedral, nunca vem ninguém. O visitante ocasional de Lisboa não tem motivo algum para vir aqui, pois, aparentemente, não há nada que o justifique, e é por isso que o guia que vocês trazem no bolso, mesmo o mais minucioso, certamente não a indica. No entanto, existem razões que também escapam aos melhores guias. Neste caso, a saudade, aliás, à qual é dedicada esta rua. Saudade é palavra portuguesa de tradução impenetrável, porque é uma palavra-conceito, assim sendo, é substituída em outras línguas de maneira aproximativa. Num dicionário comum de português-italiano vocês a encontrarão traduzida como “nostalgia”, palavra muito jovem (foi cunhada no século XVIII pelo médico suíço Johannes Hofer) para uma importância tão antiga como a saudade. Se consultarem um dicionário respeitável de português, tal como o Morais, após uma indicação do étimo soidade ou solitate, ou seja, “solidão”, ele dará uma definição muito complexa da palavra saudade aos seus leitores: “Melancolia causada pela lembrança de um bem perdido; dor provocada pela ausência de um objeto amado; lembrança afetuosa e, ao mesmo tempo, triste de uma pessoa querida”. É, portanto, uma coisa atormentadora, porém também pode comover, não se direcionando exclusivamente ao passado, mas, do mesmo modo, ao futuro, porque manifesta um desejo que se quer realizar. E, aqui, as coisas se complicam porque a nostalgia do futuro é um paradoxo. Talvez um correspondente mais adequado fosse o disìo dantesco que traz em si certa doçura, visto que “comove o coração”. Em suma, como explicar tal palavra? É justamente por isso que tomando distância de poucos metros vocês vieram até aqui. Porque do alto dessa pequena rua o olhar abraça toda a cidade e a enorme nascente do Tejo. E pouco mais adiante o Oceano, e o horizonte infinito. O português desconhecido que deu nome a esta rua certamente tinha olhado bem para todo o panorama. Um grande linguista disse que é impossível explicar o sentido da palavra queijo para uma pessoa que nunca o saboreou. Para entender o que é saudade, portanto, nada melhor do senti-la diretamente. O melhor momento é, sem dúvida, o pôr-do-sol, que é a hora canônica da saudade, mas também em certas noites de nevoeiro atlântico, quando sobre a cidade desce um véu e se acendem os lampiões. Ali, sozinhos, olhando esse panorama diante de vocês, talvez sintam uma espécie de aflição. A sua imaginação, dando uma rasteira no tempo, fará com que vocês pensem, no retorno para suas casas e para seus hábitos, na nostalgia de um momento privilegiado das suas vidas, quando estavam numa lindíssima e solitária ruela de Lisboa, olhando para um panorama perturbador. Sim, o jogo iniciou: estão sentindo nostalgia do momento que vocês estão vivendo neste momento. É uma nostalgia do futuro. Experimentamos, assim, pessoalmente, a saudade.


Viaggi e altri viaggi, Antonio Tabucchi



afonso ferreira às 23:32 | link do post | comentar
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afonso ferreira às 23:24 | link do post | comentar | ver comentários (1)
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Certos estados de espírito não se coadunam com o Verão, é uma constatação antiga, de modo que para conseguir pensar melhor lá fui eu à igreja mais próxima, por acaso a de São Domingos ao Rossio, enquanto esperava por um fax maldito que tardava a chegar ao banco. Sendo a minha religiosidade proporcional ao meu desprezo pelos bancários, particularmente os de um banco em especial, espero sinceramente não ter andado errado a vida toda e que deus seja realmente uma ilusão, ou que, pelo menos, tenha batido as botas e esteja Nietzsche coberto de sapiência, por que senão estou feito ao bife com a porcaria de pensamentos que levo para a casa dele. É sabido que quanto mais sórdidas são as minhas preocupações, mais necessidade sinto de espaços em silêncio, de preferência com tectos altos trabalhados e uns frescos a iluminar as paredes, de maneira que ir parar a igrejas é uma constante. Já consegui fazer quase tudo pelos templos da cidade – pensar, roer maças, escrever, acabar uma relação por sms, ler, diálogos com o meu amigo imaginário, escrever uma apresentação inteira para uma reunião, esperar faxes do banco... –, enfim, são infindáveis as possibilidades, excepto quando há missa e me perco nos sermões.



afonso ferreira às 21:22 | link do post | comentar | ver comentários (3)
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A.

17.03.12


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afonso ferreira às 18:22 | link do post | comentar
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O riso é a distância mais curta entre duas pessoas.



afonso ferreira às 02:09 | link do post | comentar | ver comentários (4)
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Domingo, 25 de Março de 2012

 Antonio Tabucchi (1943 - 2012)

 

Começo o dia com a tua morte e não me sabe bem. Morrem-me os escritores às mãos cheias e eu não dou valor à morte, é uma mal educada e inconveniente. A morte irrita-me. Leio as notícias e regresso a Requiem imediatamente. Mais uma vez. Cá está ele na estante. Já não sei quantas vezes o reli. Não tem data, o que significa que anda comigo há mais de dez anos. Um dia quente, muito mais quente que o de hoje, a cidade a mesma, Lisboa eterna, os mortos, os fantasmas e um homem a despedir-se pela última vez de pessoas e coisas desaparecidas na sua vida – um amigo, uma mulher, o pai, um poeta, uma casa, uma pintura. Um sonho que evoca a morte com alegria, e isto leva-me ao sonho desta noite, um amigo que desaparecia para sempre. Quando acabar este texto vou fazer uma chamada. Mas os livros. Portanto, cá está o Requiem, Os últimos três dias de Fernando Pessoa, O anjo negro, e o Está a fazer-se cada vez mais tarde, que não gostei a primeira vez que li mas depois de muita pancada na vida apreciei com vigor cada uma das palavras. Falta o Afirma Pereira que deve ter ganho vida própria e ido a banhos sem dizer água vai. Andará por aí com certeza. Olha, António, foram muitos anos a ler os teus livros, e para cá fico com o remorso não ter lido todos, mais dia menos dia temos encontro marcado no outro lado das palavras.



afonso ferreira às 17:35 | link do post | comentar | ver comentários (5)
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afonso ferreira às 12:38 | link do post | comentar | ver comentários (1)
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Quinta-feira, 22 de Março de 2012


afonso ferreira às 16:18 | link do post | comentar | ver comentários (2)
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Quarta-feira, 21 de Março de 2012

A mentira tem cidade curta, mais facilmente se apanha uma omissão que uma metrópole.



afonso ferreira às 14:49 | link do post | comentar | ver comentários (2)
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Meia hora à conversa com o par de olhos mais impressionantes do meu registo oftalmológico. Castanhos e azuis, não um de cada cor, mas as duas cores em simultâneo. Uma raridade.



afonso ferreira às 13:24 | link do post | comentar
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Terça-feira, 20 de Março de 2012


afonso ferreira às 19:42 | link do post | comentar
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afonso ferreira às 18:47 | link do post | comentar | ver comentários (1)
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Segunda-feira, 19 de Março de 2012


afonso ferreira às 23:32 | link do post | comentar | ver comentários (1)
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Domingo, 18 de Março de 2012
Bastam-me as cinco pontas de uma estrela 
E a cor dum navio em movimento 
E como ave, ficar parada a vê-la 
E como flor, qualquer odor no vento. 

Basta-me a lua ter aqui deixado 
Um luminoso fio de cabelo 
Para levar o céu todo enrolado 
Na discreta ambição do meu novelo. 

Só há espigas a crescer comigo 
Numa seara para passear a pé 
Esta distância achada pelo trigo 
Que me dá só o pão daquilo que é. 

Deixem ao dia a cama de um domingo 
Para deitar um lírio que lhe sobre. 
E a tarde cor-de-rosa de um flamingo 
Seja o tecto da casa que me cobre 
Baste o que o tempo traz na sua anilha 
Como uma rosa traz Abril no seio. 
E que o mar dê o fruto duma ilha 
Onde o Amor por fim tenha recreio. 

Poema destinado a haver domingo, Natália Correia, Poesia Completa, Publicações Dom Quixote, 1999


afonso ferreira às 19:27 | link do post | comentar | ver comentários (3)
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Sábado, 17 de Março de 2012

O número elevado de homens a escrever sob anonimato utilizando nomes fictícios de mulheres na blogosfera política é equivalente ao número anual de espécimes de barba rija mascarados de saia e lantejoulas no carnaval de Torres Vedras.



afonso ferreira às 12:53 | link do post | comentar | ver comentários (5)
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Sexta-feira, 16 de Março de 2012

 

 

If you're absent during my struggle don't expect to be present during my sucess.



afonso ferreira às 14:12 | link do post | comentar | ver comentários (1)
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Finda uma crise de insónias, surge outra de horários madrugadores. Acordar com o nascer do sol e ter dias compridos cheios de horas a que urge dar destino. Há uns anos resolvia as crises de insónias de forma mais radical, não dormia uma noite, aniquilando de imediato a energia que restasse na noite seguinte. Eram noites que passava a estudar, e mais tarde a trabalhar ou a ler. Com o tempo perdi a capacidade de aguentar tantas horas acordado e larguei, com alguma pena, a teoria que deveria mesmo só dormir de dois em dois dias. Mas com isso perdi também as minhas noites solitárias que tanto prazer me davam e substituí-as por um problema banal, as noites em branco. 



afonso ferreira às 12:17 | link do post | comentar | ver comentários (6)
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Quinta-feira, 15 de Março de 2012


afonso ferreira às 14:40 | link do post | comentar
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Terça-feira, 13 de Março de 2012

É muito importante a dificuldade, os passos serem dados lentamente e a pessoa sentir que não é fácil escrever, como não é fácil viver.



afonso ferreira às 16:33 | link do post | comentar | ver comentários (3)
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afonso ferreira às 02:33 | link do post | comentar | ver comentários (1)
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Segunda-feira, 12 de Março de 2012

Diz-me com quem andas e dir-te-ei quem se interessará.



afonso ferreira às 14:37 | link do post | comentar | ver comentários (5)
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Sábado, 10 de Março de 2012

Quem me dera ser velho e não querer saber destas coisas. As mulheres só atrapalham, não se sabe como lhes pegar. Mas é horrível estar sem elas. Mulheres de mãos compridas e cabelos soltos. Gosto tanto delas e estou aqui fechado quando lá fora tudo está cheio de mulheres de todas as cores e feitios.

Agustina Bessa-Luís, A Alma dos Ricos



afonso ferreira às 02:27 | link do post | comentar | ver comentários (3)
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Quarta-feira, 7 de Março de 2012

Nunca acreditei que para curar um dedo doente seja preciso cortar o braço, mas há casos que, mesmo sendo o mísero dedo o problema, é  melhor cortar o braço para salvar o corpo todo.



afonso ferreira às 02:29 | link do post | comentar | ver comentários (2)
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Segunda-feira, 5 de Março de 2012
 


afonso ferreira às 02:14 | link do post | comentar
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Sexta-feira, 2 de Março de 2012

Entre a acção ou inércia, prefiro a primeira mesmo que leve à guerra. Há que apreciar a paz, mas é impossível fugir à luta. E com isto tudo ainda não encontrei o estapor da pasta das imagens.



afonso ferreira às 14:35 | link do post | comentar | ver comentários (2)
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Quinta-feira, 1 de Março de 2012

Não tenho publicado por desconhecer o paradeiro da pasta das imagens. É para perceberem a aleatoriedade em que este blog chafurda.



afonso ferreira às 14:47 | link do post | comentar
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