Segunda-feira, 25 de Abril de 2011

 

Como pode ser-se idiota e, ao mesmo tempo, feliz, pergunta-me um leitor? Pois explico já. A idiotia e a felicidade são ideias muito vagas, difíceis de cingir em conceitos de circulação universal, digamos. Mas, pensando melhor, acho que certa idiotia é susceptível de conferir ao idiota seu proprietário (ou seu prisioneiro) uma espécie de segurança em si próprio que o levará, em determinados momentos, julgo eu, a uma beatitude muito próxima do que se pode chamar estado de felicidade.Assim sendo, não vejo incompatibilidade entre o ser-se idiota e o ser-se feliz. Bem sei que há várias maneiras de se chegar a idiota. (...) Se tivesse casado com ela (...) talvez tivesse sido feliz - não se sabe - idiota e feliz. Assim, fiquei longos anos idiota e infeliz, infeliz por ser idiota e saber que o era e que não podia deixar de o ser. Ora, um idiota que é infeliz por saber que é idiota já pode estar a caminho de deixar de o ser. É uma possibilidade. É a tal luz no fundo do túnel, como se disse tantas vezes a propósito da situação económica deste idiota de país. 

Não se espante, por conseguinte, o leitor de que um qualquer idiota possa, ao mesmo tempo, ser feliz. É, até, assaz corrente. Há idiotas que se consideram inteligentíssimos, o que é uma forma muito comum de idiotia, e extraem dessa certeza alguma felicidade, aquela maneira de felicidade que consiste em uma pessoa se julgar muito superior às que a rodeiam. 

O leitor gostaria de ser ministro ou secretário de Estado? Pois fique sabendo que há quem goste, embora - será justo dizê-lo - também há quem o seja a contra-gosto, por dever partidário ou patriótico. Os idiotas, de modo geral, não fazem um mal por aí além, mas, se detêm poder e chegam a ser felizes em demasia podem tornar-se perigosos. É que um idiota, ainda por cima feliz, ainda por cima com poder, é, quase sempre, um perigo. Oremos. Oremos para que o idiota só muito raramente se sinta feliz. Também, coitado, há-de ter, volta e meia, que sentir-se qualquer coisa. 


Idiotia e Felicidade, Alexandre O'Neill, in "Uma Coisa em Forma de Assim" 



afonso ferreira às 23:17 | link do post | comentar
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3 comentários:
De Bípede falante a 26 de Abril de 2011 às 18:46
Ser feliz e ser idiota é praticamente a mesma coisa nos dias de hoje.
bjs


De afonso ferreira a 26 de Abril de 2011 às 22:43
nem mais, bípede.


De Cristina a 30 de Abril de 2011 às 23:25
Não sei porquê, mas este excerto lembrou-me algumas afirmações que li num livro que tem por título Teoria Geral da Estupidez Humana... (e que entretanto fui buscar à estante para o revisitar)
Deste excerto, ficou-me a vontade de ler mais do que o aqui publicado, e ocorre-me que as orações às quais somos incitados não têm surtido qualquer efeito!




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