Segunda-feira, 1 de Fevereiro de 2010

 

Serpenteio pelas ruas, o motor a roncar por cima dos trilhos dos eléctricos, o céu pardo, o cigarro na mão para pensar melhor. Dou duas voltas ao Panteão, passo no largo, hoje tão despido sem a feira da ladra. O mercado de Stª. Clara fechado. Um centro comercial a anunciar saldos, que juro que nunca antes vi. Falta aqui o bulício, falta gente, falta semana. Sempre me apeteceu vomitar aos domingos só por tédio. Por associação de ideias lembro-me que nunca vi um circo de pulgas e tenho pena. Imagino as pulgas no trapézio, aos saltos no trampolim, a saltar arcos em chamas. Sempre deve ser mais animado que o Panteão, solitário com a cúpula em obras, andaimes que parecem uma teia de aranha à cata de turistas voadores. Esta cidade adormecida. Decido estacionar no sítio mais inclinado que encontrei e seguir a pé. Passo na piscina, aquela em que prometi tantas e tantas vezes nadar contigo e nunca cumpri. Agora apetecia-me mergulhar, recuperar o tempo perdido, o último Verão. Se pudesse mergulhava de botas e sobretudo ignorando o termómetro emocional que está estragado. Olho para o rio e o casario e viro para o cotovelo à procura do prédio de azulejos castanhos. Nesta rua faltam uma dezena de números. Passa do número 20 para o 30 e tal sem explicação. Faltam seis prédios e quem lá vivia e ninguém deu por isso. Uma noite a rua estava completa, estavam os prédios e as pessoas a passar a ferro e a discutir, no dia seguinte eclipsaram-se. Ninguém pestanejou e a vida continuou. Indaguei dos prédios a um homem bonito que mora na rua do eclipse. Primeiro olhou para mim com desconfiança mas percebendo a falha ficou sem explicação, hipnotizado a olhar para a rua. Aposto que estão todos no circo de pulgas a desenvolver truques de ilusionismo. Subo os azulejos castanhos e troco juras de trabalho eterno, fujo ao anoitecer, procuro o carro, a rua está mais meio metro inclinada, mais um pouco o carro capotava e era uma trabalheira apanhar o animal umas colinas abaixo. A piscina continua a olhar para mim, maldito tanque de lágrimas.



afonso ferreira às 01:11 | link do post | comentar
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2 comentários:
De leo mandoki a 1 de Fevereiro de 2010 às 08:42
gosto realmente bastante do que tu escreves. Eu não sou de Lisboa, mas vi e senti-me nesse teu domingo na Baixa...eu odeio os domingos nas cidades...as câmaras deveriam proibir os domingos nas cidades. No fim de tudo, talvez nos encontrássemos a nadar na piscina...ouviríamos as braçadas um do outro e não teríamos dito nem sequer «bom dia», porque os domingos nas cidades são assim - mudos.
um beijo forte e boa segunda... terça...e quarta...


De afonso ferreira a 1 de Fevereiro de 2010 às 11:06
a chaga dos domingos é o tema sempiterno de qualquer dia sem inspiração. Boa semana


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