Quinta-feira, 4 de Fevereiro de 2010

 

Afinal o que importa não é a literatura
nem a crítica de arte nem a câmara escura

Afinal o que importa não é bem o negócio
nem o ter dinheiro ao lado de ter horas de ócio

Afinal o que importa não é ser novo e galante
- ele há tanta maneira de compor uma estante

Afinal o que importa é não ter medo:

fechar os olhos frente ao precipício
e cair verticalmente no vício

 

Não é verdade rapaz? E amanhã há bola
antes de haver cinema madame blanche e parola

Que afinal o que importa não é haver gente com fome
porque assim como assim ainda há muita gente que come

Que afinal o que importa é não ter medo
de chamar o gerente e dizer muito alto ao pé de muita gente:
Gerente! Este leite está azedo!

Que afinal o que importa é pôr ao alto a gola do peludo
à saída da pastelaria, e lá fora – ah, lá fora!

 

– rir de tudo

No riso admirável de quem sabe e gosta
ter lavados e muitos dentes brancos à mostra

 

 

Mário Cesariny, Nobilíssima Visão (1945-1946), in burlescas, teóricas e sentimentais (1972)



afonso ferreira às 11:08 | link do post | comentar
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