Domingo, 7 de Fevereiro de 2010

 

I. O Circo

 

Passamos pelo pátio cheio de ruidosos convivas, contornamos a grande tenda e descemos à cave que parece um poço grande. Cumprimento a dj sereia, percorro o espaço com o olhar. Bar ao fundo, mesas e cadeiras e pessoas a estrangularem-se com álcool, estantes com livros e segredos e uma espécie de tanque estranho de pedra que não descodifico para o que serviu em tempos. Fazemos do tanque poleiro para a conversa e falamos da guerra, do fiscal Freitas, de projectos, do futuro, e principalmente da nossa consternação e desilusão perante o presente. Da impotência perante as circunstâncias. Dissecamos o estranho momento – enquanto a rapariga que finge não perceber que não desperta interesse envia mais uma mensagem para o telemóvel, enquanto o homem que afinal nada tinha para dar fugiu em direcção ao inferno – e decretamos que assim não vale a pena viver. Pedimos o cardápio e encomendamos alguns malabaristas, dois cuspidores de fogo, cinco bailarinas de can can, um domador e três leões. Temos de fazer amigos novos e esta noite parece-me um bom começo.

 

 

II. O Acidente

 

Atravessamos a cidade, percorremos a grande praça e esperamos pela luz verde a caminho do cinema. Tu falas, e eu olho para ti e para a avenida e para o trânsito e o carro que passa por nós que não vai conseguir parar. Eu não tenho tempo nem mais acção do que segurar o teu braço quando o grande estrondo acontece. Os dois carros enfaixados numa relação esquizofrénica e desigual de culpas. Esquecemos tudo o que dissemos e ficamos a olhar para os animais feridos, a chapa a gemer, os motores ainda quentes. Ficaste com uma dor de cabeça monumental e eu a pensar que é tão fácil morrer. Disseste-me, quando tudo o que tinha dentro de mim era água, que sempre pensaras que era de aço inox e tive vontade de te mostrar isto – o acidente na avenida, a chapa paralítica, os destroços que ficam depois do choque. O que é aço inox no momento seguinte pode ser papel manteiga. Nada é imutável.

 

 



afonso ferreira às 22:48 | link do post | comentar
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2 comentários:
De Manu a 15 de Fevereiro de 2010 às 00:01
Tão bom, não sei como pude deixar de lêr e acabo de me render ao facto que realmente o aço inox mo momento seguinte, pode mesmo ser papel de manteiga. Já tenho explicação para as dores de cabela monumentais, que escorregam que nem cascas de babana quando tudo se desfaz de um mimento para o outro. nada é imutavél, é isso!!


De Manu a 15 de Fevereiro de 2010 às 00:06
Ps- o facto de ter o teclado com um ataque de nervos faz tempo, faz palavras engraçadas como mimento, lo, entre outrasl. Será uma mistura de mimo com momento??? :p
Agora saiu tudo direitinho, uffa


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