Terça-feira, 15 de Dezembro de 2009

 

 

Primeiro desenha-se com a lâmina uma linha fina, quase invisível a olho nu. Muito lentamente para não haver hipótese de erro. A lâmina tem de estar afiadíssima. A régua, ou objecto semelhante, convém ser de metal ou material idêntico, algo que não deforme com a passagem da lâmina. O primeiro corte tem de ser feito com precisão cirúrgica. O segundo corte é feito exactamente da mesma forma. E assim, sucessivamente, até o corte estar completo. O resultado costuma ser perfeito. Um corte imaculado, exacto de um ponto ao outro, sem fugas, sem hesitações. Pode-se avaliar uma pessoa pela forma como corta. A rapidez é inimiga da perfeição. A paciência compensa. Quando era rapaz era avaliado pelo meu desempenho no desenho. Como era um desastre, usava papéis coloridos cortados de forma perfeita que eram sobrepostos. O resultado era bastante apelativo e costumava ser elogiado por isso. Estava, então, longe de imaginar quão útil se revelaria a técnica de corte desenvolvida em tão tenra idade. Enquanto executo o corte, evoco o meu passado longínquo, quatro décadas passadas e sonho. Faço uma pausa para fumar. Inspecciono o quarto à procura de um alarme  de incêndio. Nenhum à vista. Hesito antes de acender o cigarro e procuro também na casa de banho contígua ao quarto. Não encontro nenhum. Não é o alarme que me assusta, é o sistema de aspersão de água que pode colocar em risco toda a operação. Abro a janela e acendo o cigarro. Sinto a solidão a pesar-me. Da janela vejo o Empire State Building a dois quarteirões de distância. Estou no 59º andar mas, ainda assim, para ver o topo do edifício, tenho de inclinar a cabeça num ângulo estranho. Só hoje, ao quinto dia, compreendi que as cores das luzes no topo do edifício mudam consoante o país a homenagear. Percebi que as luzes não mudavam aleatoriamente, como julgara inicialmente, porque hoje o edifício está vestido de vermelho, amarelo e verde. As cores da bandeira portuguesa para comemorar o dia 10 de Junho. Não deixei de sentir um murro no estômago, não deixa de ser um sentimento pueril, e mais pueril é admiti-lo. Uma pontinha de orgulho saloia, aqui está a nossa bandeira visível por uma noite na capital do mundo. Uma pessoa transporta a pátria sempre dentro de si. Até aqueles que a odeiam e fugiram para não mais voltar. As nossas raízes acompanham-nos até à morada final. Quanto mais velho estou mais penso na questão da identidade, como se arrumar a questão no meu espírito me trouxesse paz. Uma paz podre, é certo, mas pelo menos a ilusão de uma certa serenidade. Também faço jogos para ver se a minha memória está intacta. Todos os livros de um autor, os nomes dos meus colegas de há vinte anos atrás, o nome das mulheres com quem dormi. Todos os nomes e rostos por ordem cronológica. Se não recordo um que seja fico angustiado. Mas se a memória não falha sinto o sabor doce da serenidade. Tudo arrumado no sítio devido. Atirei o cigarro para a sanita e abri as janelas de par em par para arejar o quarto. Raios partam as malditas leis antitabaco. Regresso ao trabalho. Na mesa está deitado um quadro emoldurado. Há que retirar a serigrafia com o mínimo de desgaste, e isso requer um trabalho minucioso e sem falhas. É neste trabalho que estou concentrado há uma hora. Já não falta muito para acabar. É uma pena ter de tomar esta decisão. A própria moldura, um trabalho encomendado pelo coleccionador a um mestre na arte, vale bastante dinheiro. Ao vender a peça o coleccionador abusou no valor final devido a este detalhe, o qual não tentei negociar. Ainda assim estava a negociar a um preço bastante abaixo da cotação. É uma peça belíssima da Vieira da Silva destinada a um comprador em Lisboa. O trabalho minucioso que executo vai evitar pagar as taxas alfandegárias. A moldura segue na bagagem de um artista plástico que viajou comigo para a apresentação da galeria na feira de arte. Trabalho perfeito. Digno de um mestre. Amanhã estará em Lisboa em segurança. Seguirá na alfândega num canudo, enrolado no meio de dois posters foleiros de Nova Iorque, souvenirs que se compram por 5 dólares em qualquer esquina da cidade. Em Lisboa basta fazer o trabalho inverso. Colocar novamente a serigrafia na moldura. Será vendida acima do valor de tabela, porque supostamente foi comprada a um coleccionador que a estimava muito e os impostos e taxas alfandegárias, que não paguei, serão devidamente cobrados. Com tudo isto, será possível fechar este ano com lucros bastante satisfatórios.

 


 

 



afonso ferreira às 17:12 | link do post | comentar
|

Dezembro 2012
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1

2
3
4
5
6
7
8

9
13
14
15

16
17
18
19
20
21
22

23
24
25
26
27
28
29

30
31


Artigos recentes

the end

Sleepless people

provérbio transmontano

cry me a river

Falta de rigor

obrigado

prémios literários

meia-noite

battle

status

Día domingo

imaginação

virtudes públicas, vícios...

fios

Estudos de um processo

constatação de sábado

A história de uma tragédi...

Dias felizes

A Alice é psicótica

debandada

Arquivo

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Arquivado em

a minha língua é a pátria portuguesa

cartas

casamento gay

coisas extraordinárias do gabinete

conversas de caserna

corrupção

dias felizes

domingo

domingos

estudos

ghost writer

gira-discos

grandes crimes sem consequência

literatura

mercados

mundo virtual

outras cidades

paixonite

pequenas ficções sem consequência

perdido no arquivo

playlist

relvasgate

sonhos

suicídio público

taxistas

telenovela

um homem na megalópole

vendeta

viagens

todas as tags

links
Twitter
subscrever feeds