Terça-feira, 23 de Fevereiro de 2010

 

I.

Divido o manuscrito em dois como quem corta um baralho de cartas. Ato cada parte a um dos pés com cordel grosso, verifico se está bem preso. Abro as válvulas do coração para o sangue estagnado na barragem correr livremente. Caminho pela marginal da vila paralela à ria. Espera-se a tempestade, os barcos e as gaivotas estão em terra, mas eu estou preparado. Passo pelo pontão solitário, os pescadores estão na casa das embarcações a jogar à sueca. Nem pestanejam à minha passagem, esta vila está habituada a coisas mais estranhas. Ouço falar da ilha abandonada a 4 km da costa mas aqui nunca é possível distinguir a verdade da ilusão.

 

II.

E porque estou eu aqui? A história começa há uns anos atrás quando o meu amigo chegou à vila numa noite de calor tórrido. Ao chegar à marginal viu um espectáculo insólito. A rivalidade entre os habitantes e os de uma vila vizinha tinha atingido o auge. Poderia ter sido o Romeu e Julieta mas como a vida real supera sempre a ficção, não havia amor, só ódio. Um dia a julieta da vila entrou no barco para atravessar a ria e o romeu de serviço atirou umas palavras despropositadas. A julieta não achou piada à falta de dotes falantes do romeu da vila rival. Chegando a terra tratou de tocar o sino a rebalde e convocar os capuleto em peso. Que não só partilharam da indignação como resolveram tirar o assunto a limpo com gasolina e fósforos. Quando o meu amigo chegou o que viu foi o pontão e a casa das embarcações a arder e a vila inteira satisfeita a ver. No dia seguinte o pacto de silêncio percorreu a vila e ele decidiu que era terra para ele.



afonso ferreira às 10:34 | link do post | comentar
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3 comentários:
De Sandra a 23 de Fevereiro de 2010 às 11:50
Quando o rio está assim chama muito mais por nós do que em qualquer dia de verão. Ainda esta manhã o ouvi quando vinha no comboio...

SB


De Sandra a 23 de Fevereiro de 2010 às 21:04
Ah e para que fique claro, eu percebi que estás a falar da ria e não do rio. A tua narrativa e a imagem que a ilustra é que me transportaram...

SB


De Mafalda a 24 de Fevereiro de 2010 às 17:12
A sua escrita tem um movimento e uma cadência muito próprios, que me guiam de uma maneira afirmada. Estou a gostar cada vez mais.


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