Quinta-feira, 4 de Março de 2010

 

Chegaram há três dias e não voltaram a partir. Guardam os seus pertences debaixo de plásticos, vislumbram-se alguns móveis. A palavra despejo cavalgou o meu pensamento. São idosos e elegeram como morada o largo onde vivo. Vejo-os quando saio para beber café, ensonado pelas noites cada vez mais curtas; vejo-os quando regresso da labuta diária ao conforto; vejo-os quando percorro a rua em passo de corrida com os sacos das compras e chove copiosamente. Quando o céu se desfaz em torrentes permanecem de pé em silêncio de chapéus-de-chuva em riste. Invadem-me os sonhos à noite e de dia assemelham-se a um pesadelo. São a face visível da falência mais cruel, os despojos de vidas sem happy end.



afonso ferreira às 01:52 | link do post | comentar
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4 comentários:
De Bípede Falante a 4 de Março de 2010 às 02:49
Você tem muito talento para ser um ghost writer. Não vai dar certo. Melhor ser escritor.


De Sandra a 4 de Março de 2010 às 03:37
Queria dizer tanta coisa, o tanto que isto me faz sentir, mas fiquei muda, não há nada que eu consiga ou possa dizer...a não ser que odeio a nossa impotência enquanto sociedade, enquanto comunidade, enquanto pessoas, para promover algum equilíbrio no que diz respeito às condições em que cada um de nós vive! :(

SB


De Sandra a 4 de Março de 2010 às 11:28
Aqui sim, faz sentido a frase "If you don't cry reading this you are dead inside"...


De marina malheiro a 4 de Março de 2010 às 11:04
De facto, há aí alma de escritor e uma sensibilidade à flor da pele.
A situação retratada merecia talvez um conto escrito pela noite adentro.
MCarreiras


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