Sábado, 20 de Março de 2010

 

Podia ter escolhido a cadeira virada para a janela, os eléctricos e o rio, mas optei por almoçar com vista para eles. Ambos na casa dos 70, ele completamente calvo, a cabeça a reluzir, ela de cabelo curto grisalho. Almoçam serenamente, ele um peixe, ela algo que não decifro. Espreito por cima do jornal, não dão por mim. Sempre gostei de velhotes, quando era miúdo preferia ficar a ouvi-los do que a jogar à bola. Conversam casualmente, do tempo, do compromisso que têm a seguir, de um amigo em comum em que divergem na opinião formada. Têm bom gosto, reparo nos óculos de metal dele, nos brincos de pérola e nas unhas pintadas dela. Apetece-me meter conversa mas acabo por remeter-me ao silêncio. Tento perceber se são um casal, se familiares, talvez irmão e irmã, talvez apenas amigos. Divirto-me secretamente a imaginar que foram amantes quando eram novos. Uma relação clandestina nunca assumida e que agora, no fim da vida, reencontraram-se. Gosto da forma como ele pede um pudim flan ao empregado, aprecio a forma elegante de ela mexer o açúcar no café. Quando os dois decidem palitar os dentes em simultâneo não me restam dúvidas. São um casal.



afonso ferreira às 17:06 | link do post | comentar
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7 comentários:
De Maria Francisca a 20 de Março de 2010 às 17:35
Tão bonito...
A constatação das coisas simples.


De Anónimo a 20 de Março de 2010 às 18:08
Obrigada por mais este texto. Habituei-me a acompanhá-lo aqui no FB e de certa forma, têm-me feito companhia as suas palavras.
Arrisco-me a compará-lo a uma máquina fotográfica, captadora de momentos do quotidiano, momentos simples, belos por essa mesma simplicidade....
Obrigada "Homem da Cidade"....


De afonso ferreira a 20 de Março de 2010 às 21:57
Obrigado eu por aqui passar


De Isabel a 20 de Março de 2010 às 20:26
Não me importava mesmo nada de ter sido eu a escrever este post, aliás cheio de energia.
Gostei imenso:)


De afonso ferreira a 20 de Março de 2010 às 21:57
Obrigado Isabel, bj :)


De AG a 26 de Março de 2010 às 11:44
Música

Noite perdida,
não te lamento:
embarco a vida

no pensamento,
busco a alvorada
do sonho isento,

puro e sem nada,
- rosa encarnada,
intacta, ao vento.

Noite perdida,
noite encontrada,
morta, vivida,

e ressuscitada...
(Asa da lua
quase parada,

mostra-me a sua
sombra escondida,
que continua

a minha vida
num chão profundo!
- raiz prendida

a um outro mundo.)
Rosa encarnada
do sonho isento,

muda alvorada
que o pensamento
deixa confiada

ao tempo lento...
Minha partida,
minha chegada,

é tudo vento...

Ai da alvorada!
Noite perdida,
noite encontrada...

Cecília Meireles, in 'Viagem'


De AG a 26 de Março de 2010 às 11:46
Porque há uma "música" que une o casal da foto (constatação) e do texto (suposição).


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