Quinta-feira, 27 de Maio de 2010

 

I

 

A tropeçar pela calçada no conflito esquizofrénico habitual das manhãs os meus passos levam-me até ao largo. Imponente, entalado entre duas ruas íngremes em direcção ao céu, o chafariz ao centro, a inscrição no mármore, os jacarandás a dar sombra aos bancos. Eu não sei se foi de propósito mas floriram todos e o largo está tingido de cor, as folhas desmaiaram na calçada e nos carros. É belo e os meus passos estagnam vencidos pelo assombro. Num estranho casamento, raro de assistir, estão dezenas de pessoas debaixo dos jacarandás como se fossem um corpo uno. São muitos e cantam. Um olhar mais atento revela que são só homens e carregam cartazes e faixas, e o que parecia uma cantiga afinal são palavras de ordem ásperas. O que dá o tom de cantilena ao discurso inflamado são as garrafas de álcool que muitos carregam. Estão bêbados e são muitos e é muito cedo. Estão eles a vacilar agarrados aos cartazes debaixo dos jacarandás e uma brisa húmida agarra-se ao largo, aos polícias e aos meus passos. A assistir à estranha ópera está o edificio que alberga os destinos da economia. Os polícias atrás do portão, já lá estão também manifestantes. O ministério sereno, já viu muita coisa na vida, não hão-de ser uns jacaradás a florir nem uns desesperados com os copos a quebrar a sua vontade, isto há-de ruir até ao último tostão. 

 

II

Devia com certeza fazer barulho, os relinches metálicos habituais, mas agora o que recordo é o carro a deslizar silencioso pela avenida, o rio ao fundo, azul-petróleo, o dia a morrer devagarinho. O cansaço a desprender do corpo e ela, alemã, dizem os documentos, a olhar para os jacarandás. A abrir a janela e com a cabeça pendente a tentar perceber o seu aroma. A dizer que nunca tinha visto, em Berlim não existem árvores coloridas que tingem as cidades de espanto. A contar da filha Lila que significa este lilás que entra no corpo adentro. Seguimos pela avenida a fiar histórias até chegar ao rio. Do dinheiro que é necessário para continuar a erguer obra(s), dos projectos que são necessários para a vida fazer sentido, do amor e da sexualidade, quando o cansaço instala-se e modifica as perspectivas do futuro e dos afectos. Há noites que convidam a relembrar o significado de respirar.

 




afonso ferreira às 03:37 | link do post | comentar
|

1 comentário:
De Cristina Gomes da Silva a 27 de Maio de 2010 às 11:25
É sempre um deslumbramento renovado ano a ano. Espero por eles como quem espera um sinal para poder sorrir mais um pouco. :-)


Comentar post

Dezembro 2012
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1

2
3
4
5
6
7
8

9
13
14
15

16
17
18
19
20
21
22

23
24
25
26
27
28
29

30
31


Artigos recentes

the end

Sleepless people

provérbio transmontano

cry me a river

Falta de rigor

obrigado

prémios literários

meia-noite

battle

status

Día domingo

imaginação

virtudes públicas, vícios...

fios

Estudos de um processo

constatação de sábado

A história de uma tragédi...

Dias felizes

A Alice é psicótica

debandada

Arquivo

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Arquivado em

a minha língua é a pátria portuguesa

cartas

casamento gay

coisas extraordinárias do gabinete

conversas de caserna

corrupção

dias felizes

domingo

domingos

estudos

ghost writer

gira-discos

grandes crimes sem consequência

literatura

mercados

mundo virtual

outras cidades

paixonite

pequenas ficções sem consequência

perdido no arquivo

playlist

relvasgate

sonhos

suicídio público

taxistas

telenovela

um homem na megalópole

vendeta

viagens

todas as tags

links
Twitter
subscrever feeds