Quarta-feira, 23 de Dezembro de 2009

 

Entrei na casa e a primeira coisa que reparei foi no papel de parede. O homem está velho, está doente, está a pagar pelo que fez. É meu pai, mas de pai pouco teve. Fez-nos a vida negra, à minha mãe principalmente. Tu sabes, consegues imaginar. O 25 de Abril aconteceu estávamos na Madeira. Correu-lhe mal o dia. Foi apanhado na marginal. Foi apedrejado, teve de correr, de fugir, as pessoas a insultar, levou porrada. Não foi bonito. A minha mãe a ver, não mexeu um dedo. A vida dá muitas voltas. Com a revolução veio o divórcio e fomos à nossa vida sem olhar para trás. Passaram muitos anos e voltei à casa. Queria falar comigo, mas não tinha nada para me dizer. E, se dissesse alguma coisa, eu não poderia ouvir. Só conseguia olhar para o papel de parede a descolar. Aqui e ali faltavam bocados, o estuque a ceder. Quando a minha mãe vivia aqui a casa era bonita. Apesar de tudo.



afonso ferreira às 16:45 | link do post | comentar
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2 comentários:
De Maria Pascoal a 12 de Abril de 2011 às 00:14
Sem palavras...

Ficção ou não...está divinal...e de certa forma acabei de me rever aqui...há coisas incriveis de facto!

Maria Pascoal


De afonso ferreira a 12 de Abril de 2011 às 00:53
é tudo ficção. obrigado pelo seu comentário, Maria.


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