Sexta-feira, 30.03.12

Quando é que perdi a capacidade de olhar? Chegas e dizes o óbvio. As palmeiras engoliram a cidade, já não se vê a outra colina da janela, só uma nesga, os anos passaram e as árvores cresceram e engoliram-me, à cidade e a mim, e eu não vi por estar demasiado ocupado a olhar para o chão. Relembras-me histórias, pequenos eventos. Não recordo nada, apenas uns farrapos dispersos. Eu, que tenho memória de lince. Atalhas caminho e vais directo ao assunto. O que penso de estabelecer um compromisso? Percebo que estou completamente submerso em atavismos e que foi tudo duríssimo. Sou um náufrago, vivo mas ainda à deriva, incapaz de ver terra.



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Quinta-feira, 30.12.10

 

Já destruíram de forma inequívoca o coração no passado, não há dúvida quanto a isso. As histórias que contaram um ao outro comprovam-no. Uns enganos com custos pesados para a armadura sentimental. Erros, más escolhas. Já confessaram mutuamente estarem com o coração aos pulos mas os calafrios mantêm-se. Fazem tudo o que a prudência desaconselha. Se não dormem juntos uma noite é um drama, contam aos quatro ventos que estão apaixonados, apresentam amigos, mudam para um tarifário que os permite falar à borla a todas as horas do dia, apanham aviões, desaparecem. Um diz mata, o outro diz esfola. Se corre mal já sabem o desfecho, não há cura.



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Terça-feira, 16.11.10

 

Onde escreve melhor é no eléctrico 25. Descobriu aquela rota nova, que o deixa exactamente no mesmo ponto que o outro, mas demora mais tempo. Por vezes leva o dobro do tempo a chegar do que é costume. Espera também mais tempo na paragem, que é muito mais longe do que a outra, é preciso andar muitas ruas, é preciso atravessar a baixa. Mas nesta paragem não há nada entre ele e o rio. Quando chega, olha para o painel e vê quantos minutos faltam para o eléctrico. São os minutos exactos que olha para a água, para o céu, para as gaivotas e os pombos. É naquela pequena viagem, mais comprida que a outra, que tem escrito sobre todas as coisas e sobre coisa alguma também. Anda a pensar sobre as regras que transporta na sua cabeça dentro de uma mala antiga de couro. O princípio, o meio, a reviravolta, o fim, o verso, o itálico, não fumar em jejum, não apanhar frio nos pés. Está farto de regras, de ir pelo caminho mais curto, de viver entre parênteses. Um dia destes, quando ninguém estiver a ver, atira a mala ao rio e não pensa mais nisso.



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Quinta-feira, 04.11.10

 

A primeira vez foi um acaso. O café onde tinha combinado tomar o pequeno-almoço só abria mais tarde. Lembrou-se do salão de chá japonês como alternativa. Seguiram pela rua até ao espaço. Já sentados, pediram cafés e pequenos bolos de chá verde. O tempo foi curto para tantas coisas por dizer, quando deram pelas horas era tempo de partir. Despediram-se no largo caótico atulhado de carros. Liquefeitos na manhã cálida, prometeram coisas que não sabiam se iriam conseguir cumprir. Desde essa manhã voltou muitas vezes ao local do crime. Senta-se sempre no mesmo sítio, segunda mesa à esquerda de quem entra, olha para o mesmo menu com caracteres elegantes e volta a pedir o bolo de chá verde a acompanhar o café. Umas vezes está só, outras tem companhia. Pessoas que sentam-se à sua frente na segunda mesa à esquerda de quem entra, de costas para a porta. Falam, riem, contam enredos amorosos, revelam segredos, distilam políticas, dissecam situações, praguejam, desabafam. A senhora japonesa é sempre discreta ao servir à mesa. Nem um único olhar ou gesto seu denuncia que senta-se naquela mesa tantas manhãs. No fim há sempre despedidas no largo como na primeira vez.



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Sábado, 23.10.10

 

Começou pela garrafa. Observou durante alguns minutos, passou o dedo pelo relevo das letras gravadas no rótulo, apreciou a cor, o pequeno depósito que o tempo denunciava. Não tinha a certeza, mas parecia-lhe a garrafa que tinha sobrado daquele jantar. Procurou o saca-rolhas. Abriu-a, cheirou o vinho, inspirou a mistura de aromas e o cheiro na rolha. Lentamente, verteu todo o conteúdo num fio pelo ralo. Sentiu o cheiro agora mais forte, enjoativo, a pia tingida de sangue. Depois partiu a garrafa com uma pancada seca contra a pia. Com o cabo do saca-rolhas esmagou os vidros maiores até só restar uma mão cheia de pequenos diamantes sem valor. Com as mãos em concha transportou o seu pequeno tesouro até ao lixo. Não deixava de o surpreender a volatilidade dos objectos, o pequeno milagre da metamorfose de uma coisa em nada. Ainda há pouco era uma garrafa, agora já não existia.



afonso ferreira às 18:41 | link do post | comentar | ver comentários (3)
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Sábado, 11.09.10

 

É imperativo virar costas à cidade. No Caís das Colunas vejo um rapazinho maltrapilho com um cão tão minúsculo que quase o confundo com um rato. Um estranho roedor que segura nos molares com toda a sua força canina um baldinho ainda mais pequeno com moedas. Ignoramo-nos mutuamente e ficamos os três a olhar para os destroços no Tejo, o navio encalhado, as gaivotas em voos picados a rasar a linha de água. Quando era pequena sonhava que voava e via estranhas coisas guardadas no cimo da estante da sala-de-estar. Segredos da família escondidos junto ao tecto. Agora já não voo nem sinto espanto. Tédio. É isso que sinto, um grande, grandessíssimo tédio. Foi o que me apeteceu dizer no hospital. Sou doente, sofro de tédio há trinta anos, curem-me, por favor. Apanho uma pedra no chão e atiro à primeira gaivota que vejo. Depois outra pedra, outra e mais outra. Arranho os dedos no cascalho. Ponho o bando de gaivotas em alvoroço, grasnam, rodopiam nos ares. O rapaz imita-me, apanha pedras e repete-me os gestos. O cão ladra, ladra, ladra, ladra. Entre os dois não houve ave que escapasse às pedradas. Fizemos pontaria a tudo. Ainda nadasse peixe decente no rio e também levava. Só parámos quando já não havia pássaro à vista. Uma festa. Sorrimos e o cão abanou a cauda. Respiramos fundo e partimos. Afastamo-nos do cais e cruzamos a praça. Na esplanada deserta nas arcadas escolhemos a mesa central. A azáfama de outrora no café centenário desapareceu e no seu lugar nasceu uma desolação em ritmo fúnebre. Fazíamos um par bizarro sentados à mesa. O meu vestido prateado em contraste com as suas roupas andrajosas no corpo desenhado a tira-linhas. Esfomeado e com ar doente, tudo o que comia dividia com o cão que também era só patas. De vez em quando olhava para mim, numa curiosidade crescente, não só atirava pedras ao passario como o alimentava, devia surgir aos seus olhos como uma aparição. Vejo-o a ocultar comida às escondidas nos bolsos com um ar tenso. Dou-lhe todo o dinheiro que tenho e despeço-me.

 



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Segunda-feira, 21.06.10

 

...e antes que já não haja tempo e o corropio nos apanhe desprevenidos, eu confesso, e como não o posso fazer aos teus ouvidos em palavras aveludadas em que daria pequenos estalinhos com a língua para enfatizar os pontos menos importantes, porque se assim fosse o mais certo era já não dizer nada e fechar os olhos para sentir melhor, é preferível que avance sem hesitações, talvez comece por dizer que é minha convicção sermos mais livres se vivermos em vez de projectarmos essas ideias insanas que nos abrigam a obedecer, que não seriamos felizes se não fizéssemos assim ou assado, que nos faltaria uma parte vital, como o baço ou um pulmão, sei lá, se não obedecermos à ordem estabelecida, de nascer, conceber, parir, moer o juízo a toda a gente e morrer sem grande alarido, e essa outra tão moderna, do amor ser uma coisa definida que não há anormal que não saiba enumerar quando nasce e morre e o que é preciso para ser um grande romance, e não há estafermo que lembre que a noção de amor romântico nem sequer existia há umas décadas atrás, e assim como assim, empaturramo-nos de filmes tão prenhos dessa noção suburbana de viver às colheradas, dizem eles que é viver, mas, sinceramente, penso que podemos fazer melhor do que isso, ou então tragam-me o revólver porque isto é uma chachada, e talvez aproveite para contar também agora que não acredito na vida depois da morte, e se estiver errado depois logo vejo quando chegar ao céu que é o inferno que mereço com certeza, mas dizia eu, talvez pudéssemos fazer melhor, poderíamos pensar nisso, haverás de pensar que falo muito, mas vais demorar algum tempo a perceber que é bom sinal, o pior é quando me calo, quando as palavras secam em mim e nada encontro para dizer, quando a preocupação em mim morre e por vezes vivo num silêncio tão grande que é impossível voltar atrás, é como se tudo estivesse dito e não houvesse palavras a acrescentar, portanto deixa-me dizer isto, antes que feche os olhos para sentir melhor e já não haja tempo para ouvir e nessa agonia de falarmos e não ouvirmos grandes coisas ficarão por dizer ao ouvido um do outro.



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Sexta-feira, 26.02.10

 

Percorro as ruas em passo de corrida. Atrasado, atravesso a baixa ao anoitecer, pessoas, semáforos, verde-vermelho, carros e vida frenética. Viro no elevador de Santa Justa, ao chegar ao edifício identifico-me, deixo uma fila para trás e subo sozinho no elevador. No topo do edifício há uma festa, mais pessoas do que imaginava, um ar de expectativa enche-me os pulmões. Penso que afinal devia ter convidado alguém mas é tarde de demais. Dirijo-me ao bar e o empregado sem hesitar serve-me uma bebida sem perguntar nada. Devo estar com cara de quem precisa de algo forte. A bebida escorrega e incendeia-me as entranhas. Sabe bem, estava a precisar disto. Não tenho tempo para pensar na solidão, as pessoas sucedem-se, conversas entrecruzadas, reencontros. Passamos ao auditório, sento-me e deixo de pensar no caos do mundo. As cantoras entram em palco, o concerto começa, e eu penso, por um instante, que afinal é tudo tão simples. Se pudesse ficava aqui para sempre. Nos camarins sinto que percebo tudo, estou aqui e não poderia estar em mais lado nenhum.



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Quinta-feira, 18.02.10

 

Sinto-me mal. Borboletas nas entranhas, um ferro espetado da têmpora ao ouvido. Um zumbido constante, uma música sinistra nas veias azuis fininhas dos pulsos. É o veneno a actuar. Sento-me à mesa e obrigo o corpo a funcionar. Entrada, álcool, bife, cafés. Olear a maquinaria. Dizes-me com ar carrancudo que não posso falar da minha geração, tenho que falar por mim, um indivíduo apenas, uno. Eu, com o organismo único desfeito em partículas ácidas, reafirmo que a minha geração chegou ao poder. Esta semana estão todos zangados, a ser despedidos ou a caminho da prisão, um festim. É mesmo caso para falar de geração, é uma identificação clara. Não percebes nem o meu ponto de vista nem a ironia e, como um quadro vivo, o ex-assessor na travessia do deserto senta-se na mesa ao lado. Não digo nada mas olho para o camelo e vejo o miserável estado da nação. Nos jornais pendurados na parede do café está a geração na primeira página a caminho do cadafalso. Toma lá estas fotografias tão bonitas, que eu não posso falar senão vomito. No espelho da casa de banho confirmo se as olheiras estão no sítio, se hoje os ossos estão mais à mostra. Tudo como esperado, saio mais descansado. Queres ir beber champanhe e eu prefiro ir comprar livros e ruminar o veneno a andar na rua gélida. Na livraria roubas-me um beijo na fila da caixa e eu sinto-me infantil. Que não, não, não posso finalizar as coisas assim, tenho de reescrever a história. Não é esse o fim, dizes-me, mais uma vez. E eu, envenenado até à tíbia, não tenho palavras que cheguem para a evidência de certas frases. Há pensamentos que são cicuta.



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Sábado, 13.02.10

 

Passou pela janela e desviou o olhar para a cidade, acto irreflectido, virou o pescoço para a esquerda, podia ter sido para o lado contrário. Estancou o passo e aproximou-se da janela devagar. Viu a grua imponente, como uma aparição, um monstro de metal a violar o skyline da cidade. As copas das árvores não lhe permitiam localizar o local exacto onde tinha sido erguida durante a noite. Pensou que era o sinal, já pouco devia faltar. Passou o resto da noite a empacotar coisas, a rasgar papéis, a queimar objectos. Tirou as armas escondidas debaixo das tábuas de madeira do soalho. Arrastou com esforço os bidões de gasolina da arrecadação. No dia seguinte a casa era só uma memória.



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Quinta-feira, 28.01.10

 

Vi-te. Estavas na esquina a olhar para a montra da loja de tintas. Passei pé ante pé pelas tuas costas e gesticulei até sentir cãimbras para conseguir parar um táxi. Imaginei-te a escolher a cor com a qual vais pintar paredes que nunca conhecerei. Aposto que vais decidir pelo azul acinzentado, céu à espera de tempestade. Ao entrar no carro não resisti a olhar e vi-te à espera na passadeira. O corpo ao vento. No táxi em movimento apeteceu-me mergulhar num gigantesco balde de tinta verde.



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Sábado, 23.01.10

 

Sobre a vastidão dos dias? que quer que lhe diga? que descreva os meus dias à janela como um piriquito na gaiola? que mostre o engelho do tic-tac do relógio de parede a marcar o ritmo da minha morte? se deseja que fale, posso contar-lhe as histórias das rachas no soalho, das manchas que tenho nas mãos, dos medos que guardo no armário, das discussões que provoco comigo mesmo para não desaprender a falar. bem me parecia que não queria ouvir.



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Quarta-feira, 13.01.10

 

Eu sei porque é que gosto de ti. E também porque é que odeio. E o porquê de aqui estar. Eu sei. Tu és o reflexo dele, e és um reflexo tão apurado que estou contigo e confundo tudo, as palavras, penso que já sabes o que vou dizer, apetece-me iniciar a conversa no ponto onde ficámos, lá atrás, quando ainda eras carne e osso e não alguém noutro continente. E depois há a escolha do restaurante, reviravoltas, não pode ter sido acaso. Esta era a mesa onde nos sentávamos. Havia sol e sardinhas e estrangeiros a beber vinho verde. Agora é inverno e uma tempestade abateu-se na cidade há três semanas e o céu não pára de carpir. Há a forma como olhas para mim e eu não te vejo, és um reflexo. Andam os dois pelo mundo e eu sou aquele que ficou no porto. Os navios partem do Terreiro do Paço e quando já são apenas um alfinete no horizonte aconchego a gola do casaco, mato as mãos nos bolsos e inicio a marcha lenta para casa sem vós. Mas agora ainda não é tempo de despedida, por enquanto celebramos à mesa, ainda respiramos, não é hora de partidas, o rio está perto, arranha as pedras no caís, mas no Campo das Cebolas só o cheiro do lodo o denúncia. Partilhamos marisco e alheiras, cerveja e um quartilho de vinho, combinação apropriada num jantar de dois homens de campos opostos – um do norte, outro do sul. Ao nosso lado temos uma placa de barro com uns versos, profusamente decorada, azul-cobalto, azul céu e aquele verde raro em que mergulho e as palavras

 

O Fado a horas mortas / Em contraste ramboiada / Vibrante fora de portas / Com vinho e sardinha assada


Para compor o presépio, entra o acordeão, está atiçada a festa. A música a iluminar a sala de supetão, os homens animam-se, largam o jogo de futebol, rodeiam o homem. Fazem roda, animam-se como rapariguinhas. O teu reflexo na música. Já te adivinhava a sofrer lá ao longe. Envio-te cartas e não respondes, ando a carregar o medo às costas à conta do teu silêncio. A pensar o que não devo. E depois mandam-me do além reflexos teus com notícias, macabra correspondência que não precisa de selo. Afinal, partiste mais uma vez, onde andarás agora que levaste os livros todos. Levaste os livros todos e não respondes às cartas. Filho-da-puta. Mas de te saber bem, tudo esqueço, quem lê não pode estar morto, mal estarias se nada levasses, se não continuasses a partir. No alívio descubro onde reside o meu verdadeiro afecto, por te saber vivo mergulho pelo acordeão, pela roda, pela voz dos homens. Digo-te, se me ouvires onde estiveres, hoje é noite de bruxas à solta, sinto-o, atrás na nuca. 

 



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Quarta-feira, 23.12.09

 

Entrei na casa e a primeira coisa que reparei foi no papel de parede. O homem está velho, está doente, está a pagar pelo que fez. É meu pai, mas de pai pouco teve. Fez-nos a vida negra, à minha mãe principalmente. Tu sabes, consegues imaginar. O 25 de Abril aconteceu estávamos na Madeira. Correu-lhe mal o dia. Foi apanhado na marginal. Foi apedrejado, teve de correr, de fugir, as pessoas a insultar, levou porrada. Não foi bonito. A minha mãe a ver, não mexeu um dedo. A vida dá muitas voltas. Com a revolução veio o divórcio e fomos à nossa vida sem olhar para trás. Passaram muitos anos e voltei à casa. Queria falar comigo, mas não tinha nada para me dizer. E, se dissesse alguma coisa, eu não poderia ouvir. Só conseguia olhar para o papel de parede a descolar. Aqui e ali faltavam bocados, o estuque a ceder. Quando a minha mãe vivia aqui a casa era bonita. Apesar de tudo.



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Domingo, 20.12.09

 

Esta chuva que não pára, esta lama nas ruas, esta humidade pegajosa no ar. Atravesso a cidade à hora combinada e estaciono em segunda fila à tua espera. No rádio, a descrição das filas selvagens nos acessos aos subúrbios desesperados. Imagino as filhas-da-putice das ultrapassagens, as rodas a chiarem. Espero os dez minutos da praxe, enquanto desligas o computador, enquanto desejas boas festas a todos, enquanto dizes uma ou outra frase feita em direcção ao elevador. Talvez desças com algum colega e falem de qualquer coisa, tu sempre a sorrir. Lá estás tu à porta do edifício a falar. Lá estás tu, vestida de vermelho a sorrir, com a camisola que nunca gostei, com o trejeito que odeio, a cabeça de lado, os cabelos a tremer. Não ouço, mas sei o que dizes na tua indiferença pelos problemas dos outros bem disfarçada com a voz grave que colocas quando dizes  – Isso não há-de ser nada. Vejo-te a caminhar em direcção ao carro por entre o trânsito, o passo confiante. Vejo-te a fechar o guarda-chuva com as unhas de plástico que sempre abominei. Abres a porta e decido que logo à noite vou sair para comprar tabaco e não vou voltar.



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Quinta-feira, 17.12.09

 

Passava pouco das cinco, a hora do ajuste de contas do dia. As pequenas notícias quotidianas, os amores e ódios, as patetices. Da cozinha vinha o cheiro de comida, na sala, à volta da pequena mesa de café, as mulheres da minha vida.

 

O dia vence-me. Apago as luzes. Deslizo para a cama sem fazer barulho. Na quietude da casa, a cama a abanar, eu a procurar o corpo debaixo dos lençóis, a acalmar o pesadelo, a sossegar como fazem as mulheres. Também eu afago e afasto as coisas terríveis.

 

O bibe encardido, os joelhos esfolados, a minha pasta vermelha com os livros e as pautas do piano a passearem na lentidão do meu corpo a crescer. Na sala, a planta que todos juravam que tinha um comportamento suspeito. Movimentos súbitos, parecia que ouvia as conversas. No sofá observávamos a planta demoradamente. Parecia inofensiva, tinha uma flor cor-de-rosa.

 

O corpo sossega, o pesadelo diluí, mas o espelho encostado à parede continua em agonia.

 

As mulheres estão bem-dispostas, demoram-se na conversa. Os olhos verdes queixam-se. Ou o tecto é muito baixo ou o candeeiro com pingentes é muito grande. Incontáveis as cabeçadas de todos. Cada acidente, uma chuva de sons de cristal, uma testa esfolada. Que isto era bom era para prever terramotos, afiançam os olhos verdes. E os pingentes a abanar.

 

O espelho pára e eu caminho para o sonho.

 

Mais um movimento suspeito. Os olhos castanhos garantem que a planta estava virada para a direita e agora está no sentido contrário. Olhamos demoradamente a planta, em silêncio. Suspeita, suspeita. Sacana da planta, estamos nós a ficar doidos varridos?

 

Deslizo por entre os lençóis, encosto-me ao corpo tépido.

 

Olhos castanhos surgem triunfantes com uma enciclopédia de plantas, percorremos os nomes em latim. Percorremos as fotografias à procura de uma flor cor-de-rosa.

 

Acordo de madrugada e vejo a mensagem. Houve um tremor de terra, respondo que não senti nada, mas depois recordo o pesadelo, a cama a estremecer, o espelho com vida própria.

 

E os pingentes a abanar e nenhuma cabeçada. A planta, a sacana da planta.

 

Ligo às mulheres da minha vida. Ninguém atende, nem uma vez nem duas vezes. Sinto os pingentes em mim. Os lençóis são camisas de força. Finalmente a voz do outro lado. Que sim, que os estendais abanaram todos, silvos na noite, pareciam comboios a chegar à estação, mas os candeeiros estavam quietos, ela bem olhou para eles. E, se os candeeiros não mugem nem tugem, não há-de ser nada. Pior são os que têm vida.

 

E os pingentes a abanarem. A sacana era uma planta carnívora, uma cobra vegetal. Enganou-nos bem.

 

Sossego e vou ver as notícias, os amigos, as pequenas histórias. Tudo a olhar para os candeeiros mas os candeeiros não abanam. 

 

Isto era bom era para prever terramotos, diziam os olhos verdes, e o terramoto a acontecer às cinco da tarde.



afonso ferreira às 15:20 | link do post | comentar
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Era uma noite, demasiado quente para o mês de Março. Caminho pela rua à procura da morada. Numa entrada de um prédio vejo um bando de gatos a comer e por segundos imaginei quem seria que os alimentava. Das tigelas subia um vapor de solidão mas podia estar enganado. De súbito, vejo, deitado num degrau, um gato com o corpo num ângulo estranho. Pensei se não estaria morto. Tento chamar a atenção do bicho com pequenos assobios. Em vão. Ao lado do gato morto estava outro de pêlo preto que dá com a pata no cadáver. Pancadinhas suaves. Isto deixa-me alerta. Como se tivesse visto um bando de pássaros silenciar-se, prenúncio de tragédia. Pássaros em terra, tempestade no mar. Ouço passos na rua, duas sombras em movimento, e decido continuar caminho. Só uns metros à frente percebo que o prédio que procuro é o do gato morto. Volto atrás. Acendo um cigarro e olho novamente para o animal. O gato preto continua a dar pancadinhas. Não arreda pé. Inspiro calmamente no silêncio da noite quente. Apago o cigarro e toco à campainha. Subo no elevador do prédio antiquado. Na sala está o velho encenador de cabelos brancos e três elementos da companhia. Fico numa posição desconfortável, o encenador insiste que fique sentada ao pé dele mas isso obriga-me a que nunca veja todos os rostos de uma só vez. Gosto daqueles rostos. De alguma forma apaziguam-me. O velho encenador fala com voz de profundeza escorreita. Ouço a sua respiração de canário, o esforço de quase não vida, aquele silvo no meio das frases. Despeço-me como se fosse a última vez. Saio para a noite a escaldar e os dois gatos estão sós com as tigelas vazias. Um morto, o outro a dar pancadinhas no cadáver.

 



afonso ferreira às 13:08 | link do post | comentar | ver comentários (1)
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Terça-feira, 15.12.09

 

 

Primeiro desenha-se com a lâmina uma linha fina, quase invisível a olho nu. Muito lentamente para não haver hipótese de erro. A lâmina tem de estar afiadíssima. A régua, ou objecto semelhante, convém ser de metal ou material idêntico, algo que não deforme com a passagem da lâmina. O primeiro corte tem de ser feito com precisão cirúrgica. O segundo corte é feito exactamente da mesma forma. E assim, sucessivamente, até o corte estar completo. O resultado costuma ser perfeito. Um corte imaculado, exacto de um ponto ao outro, sem fugas, sem hesitações. Pode-se avaliar uma pessoa pela forma como corta. A rapidez é inimiga da perfeição. A paciência compensa. Quando era rapaz era avaliado pelo meu desempenho no desenho. Como era um desastre, usava papéis coloridos cortados de forma perfeita que eram sobrepostos. O resultado era bastante apelativo e costumava ser elogiado por isso. Estava, então, longe de imaginar quão útil se revelaria a técnica de corte desenvolvida em tão tenra idade. Enquanto executo o corte, evoco o meu passado longínquo, quatro décadas passadas e sonho. Faço uma pausa para fumar. Inspecciono o quarto à procura de um alarme  de incêndio. Nenhum à vista. Hesito antes de acender o cigarro e procuro também na casa de banho contígua ao quarto. Não encontro nenhum. Não é o alarme que me assusta, é o sistema de aspersão de água que pode colocar em risco toda a operação. Abro a janela e acendo o cigarro. Sinto a solidão a pesar-me. Da janela vejo o Empire State Building a dois quarteirões de distância. Estou no 59º andar mas, ainda assim, para ver o topo do edifício, tenho de inclinar a cabeça num ângulo estranho. Só hoje, ao quinto dia, compreendi que as cores das luzes no topo do edifício mudam consoante o país a homenagear. Percebi que as luzes não mudavam aleatoriamente, como julgara inicialmente, porque hoje o edifício está vestido de vermelho, amarelo e verde. As cores da bandeira portuguesa para comemorar o dia 10 de Junho. Não deixei de sentir um murro no estômago, não deixa de ser um sentimento pueril, e mais pueril é admiti-lo. Uma pontinha de orgulho saloia, aqui está a nossa bandeira visível por uma noite na capital do mundo. Uma pessoa transporta a pátria sempre dentro de si. Até aqueles que a odeiam e fugiram para não mais voltar. As nossas raízes acompanham-nos até à morada final. Quanto mais velho estou mais penso na questão da identidade, como se arrumar a questão no meu espírito me trouxesse paz. Uma paz podre, é certo, mas pelo menos a ilusão de uma certa serenidade. Também faço jogos para ver se a minha memória está intacta. Todos os livros de um autor, os nomes dos meus colegas de há vinte anos atrás, o nome das mulheres com quem dormi. Todos os nomes e rostos por ordem cronológica. Se não recordo um que seja fico angustiado. Mas se a memória não falha sinto o sabor doce da serenidade. Tudo arrumado no sítio devido. Atirei o cigarro para a sanita e abri as janelas de par em par para arejar o quarto. Raios partam as malditas leis antitabaco. Regresso ao trabalho. Na mesa está deitado um quadro emoldurado. Há que retirar a serigrafia com o mínimo de desgaste, e isso requer um trabalho minucioso e sem falhas. É neste trabalho que estou concentrado há uma hora. Já não falta muito para acabar. É uma pena ter de tomar esta decisão. A própria moldura, um trabalho encomendado pelo coleccionador a um mestre na arte, vale bastante dinheiro. Ao vender a peça o coleccionador abusou no valor final devido a este detalhe, o qual não tentei negociar. Ainda assim estava a negociar a um preço bastante abaixo da cotação. É uma peça belíssima da Vieira da Silva destinada a um comprador em Lisboa. O trabalho minucioso que executo vai evitar pagar as taxas alfandegárias. A moldura segue na bagagem de um artista plástico que viajou comigo para a apresentação da galeria na feira de arte. Trabalho perfeito. Digno de um mestre. Amanhã estará em Lisboa em segurança. Seguirá na alfândega num canudo, enrolado no meio de dois posters foleiros de Nova Iorque, souvenirs que se compram por 5 dólares em qualquer esquina da cidade. Em Lisboa basta fazer o trabalho inverso. Colocar novamente a serigrafia na moldura. Será vendida acima do valor de tabela, porque supostamente foi comprada a um coleccionador que a estimava muito e os impostos e taxas alfandegárias, que não paguei, serão devidamente cobrados. Com tudo isto, será possível fechar este ano com lucros bastante satisfatórios.

 


 

 



afonso ferreira às 17:12 | link do post | comentar
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Cheguei tarde à redacção e de ressaca. Ressaca da puta da vida. Há três anos que não consigo dormir. Vi, ao longe, o editor ao pé da minha secretária e fiz uma curva apertada para a máquina do café para não ter de falar ao gajo. Tarefas do dia: acompanhar a ministra da educação à inauguração de uma escola primária projecto-piloto. Um entusiasmo percorre-me as veias e acerta-me em cheio no cérebro na área que está moribunda devido às insónias. Bebo uma caneca de café a escaldar que embacia os óculos escuros e espreito a ver se o gajo já desandou. Terreno livre. Avanço de gatas para a secretária. Aceno maquinalmente com a cabeça e um grunhido à medida que passo pelas outras secretárias. Isto hoje está uma animação de palhaço pobre. Ligo o computador e percorro os emails à procura de excitações avulsas. 

 



afonso ferreira às 11:12 | link do post | comentar
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Sábado, 12.12.09

 

O taxista não acaba a frase, tira o cinto de segurança, abre a porta e sai. Passadas largas por entre o trânsito infernal, é novo e usa óculos e desaparece. Sem explicação. A porta do condutor fica aberta, a chave na ignição. E eu espero uns segundos. Longos. E tenho o pressentimento, o terrível pressentimento de que tenho de voltar.

Rápido. Sai do táxi, já. Agora. Volta ao sítio onde a deixaste.

As buzinas aumentam, já há um carro a ultrapassar o táxi, a amolgar a jante no passeio. Dois. Três. Agora, pego no telemóvel e ligo, ligo, e ligo mais uma vez. E na frustração crescente (será medo?) penso em galgar o banco da frente e pôr a primeira. Talvez até fechar a porta. Buzinas, buzinas e nada. O carro parado na Praça do Camões, eu sem me mexer e o travão de mão não sabemos se está posto. Segundos, minutos e mais um tempo. E eu desisto. Não me mexo, não quero saber. Amolguem as jantes, berrem, já não posso ver nem bêbados nem taxistas à frente. Respiro fundo, tão fundo, e mesmo assim o ar não chega. Nunca chegará nesta latrina de cidade. Respiro tão fundo que sinto vontade de acender um cigarro. E por pouco não o faço. O caixa de óculos volta intacto e por isso percebemos que o adversário vai estar a papas amanhã. Pode ser que tenha merecido. Ou não. Não diz nada e o carro desliza pela praça. As buzinas cessam. Eu não voltei atrás. Nunca volto e tenho medo. Um medo nos ossos. Eu não sei escrever sobre isto porque há histórias que não se contam. Mas o que nos compele a mencionar pequenas palavras, tão pequeninas, presas por fios finíssimos de baba, pontes entre a realidade e o nosso medo profundo, a quem bate o cotovelo com o nosso e outras coisas para além de bater o cotovelo com o nosso. Eu não posso contar, mas digo-te esta pequena palavra quase inaudível para ter o conforto de ter comungado esta história. Mesmo que não saibas e não a ouças. Há dias procurei, procurei e procurei em vão, um texto que escrevi. A missiva seguiu em tempos para uma pessoa em França que apanhou uns quantos aviões na esperança de um futuro radioso comigo. O futuro nunca aconteceu e o texto chegou ao destinatário e não voltou com certeza, aqui não o encontro. Já abri os armários, espreitei debaixo da cama e na gaveta dos talheres e não descubro a porcaria das palavras. E tenho a certeza que esse texto foi o melhor que escrevi em toda a minha vida. Tenho a certeza porque não o encontro. E não me lembro do que escrevi. E, por não o encontrar e não me lembrar, tenho a certeza, mas mesmo a certeza, de que estava tudo escrito. Tudo o que me faz medo, sem hesitações, nem virgulas a mais e, acima de tudo, porque sabia que não era o meu futuro. E agora, vou ter de escrever outro texto e já não sei se consigo. Há dias em que penso uma coisa e no dia seguinte defendo o contrário e neste entretanto de vida teria de refazer e desfazer o mesmo texto tantas e tantas vezes quantas o vento soprasse. Hoje recebi uma mensagem no telemóvel

"Já regressei (hoje) a Lisboa"

de uma pessoa que já não faz parte do meu quotidiano. E da qual não espero nada, muito menos se chega (hoje) ou não à cidade. Não respondi, tenho a secreta esperança de que seja engano, principalmente a palavra hoje. Mas hoje obriga-me a pensar no meu amanhã. O que não quer necessariamente significar futuro, isso é muito mais tarde (isso é passado). E a pensar que as pessoas da minha vida andam a apanhar muitos aviões. E que eu escrevo cada vez menos cartas. E que gostava de falar de ti no meu amanhã. Mesmo que não diga nada. Faz boa viagem.



afonso ferreira às 01:51 | link do post | comentar | ver comentários (4)
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