Começou com um post estranho na rede social. Tive de ler duas vezes. Alguém tinha deixado na wall de uma pessoa conhecida uma mensagem de despedida. Começam a surgir uns burburinhos. A pessoa não responde às mensagens nem aos apelos para que dê notícias. Juntam-se mais pessoas. Rapidamente percebe-se que entre as que estão online naquele momento nenhuma o conhece bem, e, consequentemente, ninguém tem o número de telefone. Há sempre alguém, sempre, que lembra-se do cliché, quem avisa da intenção de matar-se na realidade está a fazer um apelo, uma chamada de atenção. A minha experiência diz-me que essas chamadas de atenção acabam em tragédia. Ainda tenho na memória o último funeral em que estive presente. Fomos enterrar uma ameaça inofensiva, parece que só queria dar nas vistas, doeu que se fartou. Perco algum tempo a ler as mensagens que neste momento já surgem em catadupa. Uma coisa eu sei, quando alguém ameaça ou não, é sempre, sempre para levar a sério. Portanto decido fazer um jogo. Em quanto tempo consigo encontrar esta pessoa? Dou dez minutos a mim próprio. Começo pelo nome e o mais óbvio, a página na rede social, mas como não nos conhecemos nem somos sequer amigos virtuais não tenho acesso a nenhuma informação. Faço buscas na internet e encontro algumas pessoas com o mesmo nome, ou será a mesma pessoa com várias vidas, fico na dúvida mas decido seguir a intuição, os minutos estão a avançar rapidamente. Cinco minutos depois arrisco que deve estar numa zona específica do país, descubro que tem uma profissão paralela, é bombeiro. Nove minutos, o telefone toca no quartel. Passa das duas da manhã e estou cansado. Quando atendem o telefone improviso o discurso. É preciso explicar a situação, quem somos, que não conhecemos a pessoa em causa e acima de tudo que não convém ignorar a ameaça. Para sermos bem-sucedidos há que falar com calma, o que parece um contra-senso se atendermos à situação que estamos a tentar resolver. O bom senso também diz que a ser uma ameaça real é melhor que sejamos céleres. Do outro lado encontro uma pessoa cordial e preocupada, o que é meio caminho andado para chegar a algum lado. Acabo por saber a história de vida do meu desconhecido, tratam-me como se fosse um familiar embora explique que não nos conhecemos, a primeira vez que ouvi o nome dele foi na malfadada mensagem de despedida. Peço que telefonem à pessoa, que a tentem encontrar. Deixo o meu nome e número de telefone. Pedem-me que contacte novamente se souber de mais alguma informação. Encontrar uma pessoa pode ser um acto complicadíssimo nalgumas circunstâncias. Quando volto à internet os ânimos estão cada vez mais exaltados. Estranhamente a pessoa que mais disparates diz e inclusive ataca outra nas mensagens diz ser psicóloga. Com a chegada de mais esta comentadora os disparates sobem de nível com a agravante de não saber comportar-se nem respeitar os outros. O nível de acusações e certezas descompensadas dispara em todas as direcções com esta entrada. Claramente um caso clínico. O telefone toca e é o bombeiro. Não conseguem entrar em contacto com ele, não atende o telefone, não têm a certeza da morada, mas vão enviar uma equipa. Mais conversa e fico a saber mais pormenores. É impossível não fazer o paralelo, e se fosse comigo? Se as coisas ficarem tão negras, se cair num abismo tão profundo, que a ideia de suicídio seja sedutora?
a minha língua é a pátria portuguesa
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