Terça-feira, 15 de Dezembro de 2009

Está em curso até ao dia 20 de Dezembro a votação dos
projectos do orçamento participativo da Câmara Municipal de Lisboa.
Tudo a votar sff.



publicado por afonso ferreira às 15:54 | link do post | comentar

 

 

Cheguei tarde à redacção e de ressaca. Ressaca da puta da vida. Há três anos que não consigo dormir. Vi, ao longe, o editor ao pé da minha secretária e fiz uma curva apertada para a máquina do café para não ter de falar ao gajo. Tarefas do dia: acompanhar a ministra da educação à inauguração de uma escola primária projecto-piloto. Um entusiasmo percorre-me as veias e acerta-me em cheio no cérebro na área que está moribunda devido às insónias. Bebo uma caneca de café a escaldar que embacia os óculos escuros e espreito a ver se o gajo já desandou. Terreno livre. Avanço de gatas para a secretária. Aceno maquinalmente com a cabeça e um grunhido à medida que passo pelas outras secretárias. Isto hoje está uma animação de palhaço pobre. Ligo o computador e percorro os emails à procura de excitações avulsas. 

 



publicado por afonso ferreira às 11:12 | link do post | comentar

 

 

Por  Isabela Figueiredo.



publicado por afonso ferreira às 01:27 | link do post | comentar

 

 

Estamos na marginal, o carro segue descontrolado no asfalto. Passamos vários semáforos vermelhos. Instintivamente travo, acto involuntário, no tapete. Gesto inútil, a cidade passa veloz pelas janelas, o condutor não hesita um segundo. O carro é blindado, nem pensar abrir a janela. Sinto que não respiro, é imperativo respirar. A cada cruzamento em que o carro não abranda os meus pulmões sofrem. Tiro a gravata e guardo-a no bolso. O condutor é um negro de pele de ébano, o qual não cheguei a ver a cara. No banco de trás só lhe vejo a nuca. Tento vislumbrar o seu rosto no espelho retrovisor mas, do ângulo em que estou sentado, a única coisa que vejo é a pala do seu boné. Tenho de lhe ver o rosto. Isso vai tranquilizar-me.
– Se o suicídio o tentar não tem de pensar muito não, é só parar em qualquer cruzamento da cidade e esperar pelo primeiro malandro. 
Diz o gajo com sorriso esperto. Sorrio, tento parecer sereno, nunca perder o controlo, nunca, e penso que esta megalópole é simultaneamente o inferno e o céu no asfalto, no mar, nas avenidas e nos arranha-céus. Há umas horas atrás voava, e, por instantes, deixei de ouvir o barulho das hélices, deixei de pensar em tudo e vi a cidade gigantesca. O monstro de betão sob o sol escarninho, duro. E por isso belo. Obra de Deus. Um Deus maior, tão grande como a cidade, senão mais. 
– Este vai ser o seu melhor cartão postal do Brasil. 
Sussurra ao meu ouvido, insinuante, enquanto abre uma garrafa de champanhe encontrada no minibar da limusina. Os dentes alvos sobressaem no escuro. As mãos reluzem sob a luz incandescente do minibar. Por momentos acho-o perfeitamente patético. Novo demais. Quase repulsivo. Náusea. Estende-me o copo. Aceito a bebida e olho-o nos olhos. Brindamos e o desejo vence novamente. Decido beber de uma assentada e estendo-lhe o copo para que o encha novamente. Não perder o controlo. Olho novamente para o condutor. É imperativo ver-lhe a face. 

O carro abranda, vira à direita, novamente à direita e depois à esquerda. Depois outra rua e outra. Perco o rasto ao caminho seguido. Despejo o champanhe pela goela abaixo, sinto-me mais forte à medida que o carro perde velocidade. O carro pára em frente ao hotel. Luzes, carros, pessoas. O átrio excessivamente iluminado. Faço-lhe sinal para que saia e trate de tudo. 

 – O melhor quarto. Que levem champanhe. Gelado… Nada de cartões.

Digo isto propositadamente com voz suave mas com autoridade. A experiência diz-me que é a melhor forma de adquirir respeito. Controlo. Voz suave mas que não admite réplica. Eficaz. Uma ordem bondosa mas cirúrgica que não pode ser desrespeitada. Era assim que tratava as pessoas no Ministério. Devido a isso tinha conquistado uma bolha de oxigénio. Sim, claro, sabia que nas minhas costas, em cada vernissage, reunião, cada evento protocolar havia cochichos, mal decência, escárnio. Mas não à minha frente. E isso era quanto bastava. Era quanto bastava. Continuo sem ver o rosto do condutor. Encho novamente o copo mas desta vez dou pequenos golos, beberico como uma senhora de idade. Com suavidade. Estendo o braço por cima do banco, abro e fecho a mão, descomprimo as costas e acendo um cigarro. Abro por fim a janela. O crime que vá para o raio que o parta. Aspiro o alcatrão, o fedor de um dia da cidade, sinto o calor tépido, as luzes que me ferem os olhos como agulhas. 

 

(cont.)



publicado por afonso ferreira às 01:03 | link do post | comentar | ver comentários (1)

Segunda-feira, 14 de Dezembro de 2009

 

A nova medida anti-corrupção proposta ontem por José Junqueiro, secretário de Estado da Administração Local, pretende impedir a recandidatura de autarcas condenados na justiça por crimes dolosos com pena superior a três anos. Por muito que apeteça saudar a medida, mais vale tarde do que nunca, é caso para perguntar porque é que levou tanto tempo. The traffic was a bitch? Se tal medida tivesse sido aprovada antes das eleições autárquicas não teria sido possível nem a Valentim Loureiro nem a Isaltino Morais candidatarem-se e consequentemente serem reeleitos. A mesma medida já tinha sido proposta pelo Marques Mendes há quatro (4!) anos e o projecto-lei foi aprovado por unanimidade por todos os partidos.



publicado por afonso ferreira às 16:01 | link do post | comentar

Inauguração amanhã às 21h30. Travessa da Fábrica dos Pentes, 10, ao Jardim das Amoreiras



publicado por afonso ferreira às 15:49 | link do post | comentar

 

 

Vi-a pela primeira vez num dia de Janeiro. Daqueles em que o frio entra pela goela e a cabeça do meu dedo indicador esquerdo fica sem sensibilidade. Atravessei o corredor e cheguei à sala. Quatro metros de pé direito e janelas a condizer, altas, esguias, portadas de madeira mais antiga do que eu a abrirem para o terraço. E o Terreiro do Paço e o Tejo e as gaivotas a aparecerem no buraco daquilo que restou do incêndio que consumiu o prédio em frente. E o sol. Sol a queimar a minha cara sem piedade. Eu de óculos escuros a olhar para o Tejo em vez de olhar para os fios eléctricos lastimáveis, para o soalho desconjuntado. Eu sem perguntar quanto é que era a renda. Eu sem ir ver a casa de banho, nem o quarto, sem saber que ainda havia outra sala que dava para a arquitectura das árvores e a copa da cidade. Eu a dizer

 

 

Fico com ela

primeiro em silêncio e depois em voz alta, e, subitamente, a tirar os óculos e a perguntar com ar preocupado ao senhorio

Não há mais ninguém interessado, pois não?

 

 

 

E depois os inquilinos partiram rumo a uma casa na baixa, as obras começaram e eu só pedi para pintarem as paredes de branco, ajudam-me a pensar e a respirar melhor. E um dia abri a porta e entrei. Montei um estaleiro na sala e surgiram estantes que não chegavam para todos os livros e mesas para dez pessoas e camas de casal e comecei a viver feliz a minha solidão. Havia um gato centenário que entretanto emigrou para um país nórdico e um papagaio albino que roubava biscoitos na cozinha. Existiu um rato que comia cerejas do fundão à socapa mas uma vez a socapa correu mal e tivemos de fazer o funeral ao bicho. Já quase não recordo a fealdade da casa de banho original. Na sala da frente morreu uma pessoa há vinte e cinco anos, quando há uma tempestade entra água pelas janelas e agora já só vejo o rio de esguelha. Mas mesmo assim é a casa mais bonita que já vi.



publicado por afonso ferreira às 12:46 | link do post | comentar

Domingo, 13 de Dezembro de 2009

 

Fumar menos. Quiçá deixar mesmo de fumar. Para o bem dos meus pulmões e de quem me atura. O tempo que levo a escrever este texto já é mais que uma oportunidade para fumar pelo menos dois. Há dias uma pessoa amiga contou-me que conseguiu largar o vício definitivamente depois de décadas de fumo. Mas agora, na mais pura abstinência há dois anos, não há dia em que não sonhe com cigarros. Ou que está a fumar, ou que tem as desculpas mais implausíveis para justificar aos outros ter voltado ao vício. Chega ao ponto de acordar e cheirar a fumo. Enquanto ouvia isto e rodava a imperial na mão soube nesse preciso instante que isto era o meu futuro. Não sei se vou conseguir largar o vício, mas os sonhos já cá cantam.

 

A resolução mostra ter carácter. Só fumei um cigarro enquanto escrevi este post.



publicado por afonso ferreira às 11:56 | link do post | comentar | ver comentários (1)

Sábado, 12 de Dezembro de 2009

 

"But you're so potent, forthright and versatile. You're the type everyone likes.

Why repress it, Trade Gothic?"

 

"My father was Grotesk"



publicado por afonso ferreira às 15:30 | link do post | comentar

 

Na próxima quinta-feira o Governo prepara-se para aprovar em Conselho de Ministros o diploma que permite o casamento entre pessoas do mesmo sexo. O timing é perfeito. A proposta, praticamente pronta e em fase de apreciação interna, ao ser aprovada pelo executivo antes do final do ano, poderá ser discutida no Parlamento em Janeiro antes do Orçamento do Estado para 2010. Prevendo-se um destaque mediático forte, cumpre-se uma promessa eleitoral e ofusca-se o debate sobre o Orçamento. De fora fica o direito à adopção. Deve estar a ser guardado para um momento futuro de forte crispação política.



publicado por afonso ferreira às 14:16 | link do post | comentar

 

O taxista não acaba a frase, tira o cinto de segurança, abre a porta e sai. Passadas largas por entre o trânsito infernal, é novo e usa óculos e desaparece. Sem explicação. A porta do condutor fica aberta, a chave na ignição. E eu espero uns segundos. Longos. E tenho o pressentimento, o terrível pressentimento de que tenho de voltar.

Rápido. Sai do táxi, já. Agora. Volta ao sítio onde a deixaste.

As buzinas aumentam, já há um carro a ultrapassar o táxi, a amolgar a jante no passeio. Dois. Três. Agora, pego no telemóvel e ligo, ligo, e ligo mais uma vez. E na frustração crescente (será medo?) penso em galgar o banco da frente e pôr a primeira. Talvez até fechar a porta. Buzinas, buzinas e nada. O carro parado na Praça do Camões, eu sem me mexer e o travão de mão não sabemos se está posto. Segundos, minutos e mais um tempo. E eu desisto. Não me mexo, não quero saber. Amolguem as jantes, berrem, já não posso ver nem bêbados nem taxistas à frente. Respiro fundo, tão fundo, e mesmo assim o ar não chega. Nunca chegará nesta latrina de cidade. Respiro tão fundo que sinto vontade de acender um cigarro. E por pouco não o faço. O caixa de óculos volta intacto e por isso percebemos que o adversário vai estar a papas amanhã. Pode ser que tenha merecido. Ou não. Não diz nada e o carro desliza pela praça. As buzinas cessam. Eu não voltei atrás. Nunca volto e tenho medo. Um medo nos ossos. Eu não sei escrever sobre isto porque há histórias que não se contam. Mas o que nos compele a mencionar pequenas palavras, tão pequeninas, presas por fios finíssimos de baba, pontes entre a realidade e o nosso medo profundo, a quem bate o cotovelo com o nosso e outras coisas para além de bater o cotovelo com o nosso. Eu não posso contar, mas digo-te esta pequena palavra quase inaudível para ter o conforto de ter comungado esta história. Mesmo que não saibas e não a ouças. Há dias procurei, procurei e procurei em vão, um texto que escrevi. A missiva seguiu em tempos para uma pessoa em França que apanhou uns quantos aviões na esperança de um futuro radioso comigo. O futuro nunca aconteceu e o texto chegou ao destinatário e não voltou com certeza, aqui não o encontro. Já abri os armários, espreitei debaixo da cama e na gaveta dos talheres e não descubro a porcaria das palavras. E tenho a certeza que esse texto foi o melhor que escrevi em toda a minha vida. Tenho a certeza porque não o encontro. E não me lembro do que escrevi. E, por não o encontrar e não me lembrar, tenho a certeza, mas mesmo a certeza, de que estava tudo escrito. Tudo o que me faz medo, sem hesitações, nem virgulas a mais e, acima de tudo, porque sabia que não era o meu futuro. E agora, vou ter de escrever outro texto e já não sei se consigo. Há dias em que penso uma coisa e no dia seguinte defendo o contrário e neste entretanto de vida teria de refazer e desfazer o mesmo texto tantas e tantas vezes quantas o vento soprasse. Hoje recebi uma mensagem no telemóvel

"Já regressei (hoje) a Lisboa"

de uma pessoa que já não faz parte do meu quotidiano. E da qual não espero nada, muito menos se chega (hoje) ou não à cidade. Não respondi, tenho a secreta esperança de que seja engano, principalmente a palavra hoje. Mas hoje obriga-me a pensar no meu amanhã. O que não quer necessariamente significar futuro, isso é muito mais tarde (isso é passado). E a pensar que as pessoas da minha vida andam a apanhar muitos aviões. E que eu escrevo cada vez menos cartas. E que gostava de falar de ti no meu amanhã. Mesmo que não diga nada. Faz boa viagem.



publicado por afonso ferreira às 01:51 | link do post | comentar | ver comentários (4)

Agarro a madrugada

como se fosse uma criança,

uma roseira entrelaçada,

uma videira de esperança.

Tal qual o corpo da cidade

que manhã cedo ensaia a dança

de quem, por força da vontade,

de trabalhar nunca se cansa.

Vou pela rua desta lua

que no meu Tejo acendo cedo,

vou por Lisboa, maré nua

que desagua no Rossio.

Eu sou o homem da cidade

que manhã cedo acorda e canta,

e, por amar a liberdade,

com a cidade se levanta.

Vou pela estrada deslumbrada

da lua cheia de Lisboa

até que a lua apaixonada

cresce na vela da canoa.

Sou a gaivota que derrota tudo

o mau tempo no mar alto.

Eu sou o homem que transporta

a maré povo em sobressalto.

E quando agarro a madrugada,

colho a manhã como uma flor

à beira mágoa desfolhada,

um malmequer azul na cor,

o malmequer da liberdade

que bem me quer como ninguém,

o malmequer desta cidade

que me quer bem, que me quer bem.

Nas minhas mãos a madrugada

abriu a flor de Abril também,

a flor sem medo perfumada

com o aroma que o mar tem,

flor de Lisboa bem amada

que mal me quis, que me quer bem.

 

Ary dos Santos



publicado por afonso ferreira às 01:38 | link do post | comentar | ver comentários (3)

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