Foi um casamento tão bonito, depois separaram-se e viveram felizes para sempre.
"Situação inesperada vai requerer uma atitude firme. Não, não será uma operação stop em que exigirá análises ao sangue porque não confia no balão. Não dê nada por adquirido. Até há quem mude de club..."
Esta noite aprendi uma expressão nova, aqui há atrasado – significa há uns tempos, algo que aconteceu. E é mesmo com o h. Pois como não há coincidências, este post era sobre o passado. O passado recente que agora parece-me extremamente longínquo. Aqui há atrasado eu tinha a capacidade de rir, mas rir com gosto, das desgraças, das coisas que deviam magoar, uma forma de lhes deitar a língua de fora. Hoje, com um copo de vinho na mão, numa mesa com amigos, dos verdadeiros, ri como há muito não recordava. A propósito de uma pequena história, daquelas pequeninas mas que são sempre as melhores. Contavam-me que num instituto onde uma pessoa amiga trabalhou existia uma D. Lurdes. De vez em quando pedia para sair mais cedo porque tinha de ir tratar da gavetinha. Ninguém fazia ideia do que era a misteriosa gavetinha, ponderaram se estaria no pleno das suas capacidades, mas ninguém ousava perguntar. Um dia descobriram que os cemitérios da cidade já não tinham espaço e os novos corpos tinham como destino as gavetinhas, ou seja, os ossários. Não é a melhor história que já ouvi, mas aqui há atrasado que não ria de forma desenfreada esquecendo o mundo por momentos. Tinha saudades disso.
"Aos cinquenta anos, sou um ser perplexo,
não como aos vinte, aos trinta, ou aos quarenta,
mas radicalmente perplexo. Não sei
se amo a vida ou a detesto. Se desejo
ou não desejo continuar vivendo.
Se amo ou não amo aqueles que amo,
se odeio ou não odeio os que detesto.
(...) E vivi tanto
que me parece tão pouco. E hei-de morrer
desesperado por não ter vivido.
Aos cinquenta anos
nem sequer a raiva dos outros me sustenta
o gosto e a paciência de estar vivo."
Apesar ou a pesar? no Aspirina B.
Pergunte-se ao Mundo: quantos gostariam de viver num país onde 9 em 10 trabalhadores estão empregados, vivem em algomerados servidos por água, electricidade, gás, redes viárias, redes de transportes públicos, medicina, escolas, polícia, bombeiros, diversão, cultura, desporto e podem escolher livremente os seus governantes? Depois, é só pesar a resposta para nos descobrirmos num clima de altíssimo sucesso económico.
E sim, o país é Portugal se teve dificuldades em perceber do que lugar paradisíaco se falava.
Ando a ler o site Guerra Colonial. Recentemente, entre amigos, ao som do FMI do José Mário Branco, iniciámos uma conversa acerca de armas. As armas que nos anos 70 e 80 abundavam nos lares portugueses muito por culpa dos militares que voltaram para o país com armamento. Por culpa da guerra colonial digo eu, porque há quem defenda que armas é o que não falta(va) no país, com ou sem guerra. E, com certeza, de alguma lado têm de aparecer as armas que matam o vizinho por causa da delimitação de terra que foi alterada, a arma que mata a mulher entre portas. Outras das coisas que abundavam eram as fotografias. Como ninguém da minha família mais próxima esteve na guerra ou viveu nas colónias foi algo a que não tive acesso no meu lar. Mas tive na casa de amigos. Vi muitas. Algumas mesmo horrendas. O horror impresso em pequenos quadrados de papel, a maior parte delas a preto a branco. Um amigo contava, para ilustrar a proliferação de armas na altura, que era miúdo e estava sozinho a estudar em Setúbal. Quando deu por ele estava num carro com uns tipos mais velhos a caminho da discoteca Shangai na Baixa da Banheira. Percebeu no percurso que o carro estava pejado de armas. Armas de todas as formas e feitios na bagajeira e eles a caminho de uma discoteca cheia de pessoas. Felizmente não aconteceu nada. Já ouvi de pessoas próximas muitas histórias destas. Lembram-se de ser tão comum crianças morrerem por acidente com armas em casa? Eu lembro-me, talvez por estar na idade dos disparates e fartarem-se de me avisar para que se visse uma arma não lhe tocasse. Lembro-me também que há uns anos atrás o Diário de Notícias publicou uma série de fotografias das chacinas e destruição de aldeias durante a guerra. A polémica foi enorme. Às imagens de cabeças africanas espetadas em paus respondiam que nada daquilo era verdade, que a nossa (des)colonização não tinha sido assim, manipulações, uma mentira pegada. Mas as fotos existem. São muitas e eu vi milhares.
No restaurante japonês junto ao rio. A chover.
Ele: Não percebo como é que duas pessoas como nós, tão parecidas, estão sozinhas, não estão juntas.
Ela: Não consigo voltar atrás. Tenho realmente de sentir.
Ele: Vamos dar o último beijo?
Ela: Enviei-te uma carta enorme e respondeste-me com duas linhas...
Ele: Eu estava em viagem...
Ela: Quando partir achas que é possível continuar as consultas com o psiquiatra pela internet?
Ele: É mesmo o último beijo.
Ela: já decidi que quando for embora vou só levar uma mochila pequena e o portátil. Vou deixar tudo para trás.
Ele: Fazes bem.
Ela: A mochila ou o psiquiatra?
As ordens são expressas no painel à porta. Não se pode fumar nem comer, telemóveis nem vê-los. À partida seria de dar meia volta e desandar dali para fora, mas o bilhete está comprado, bebi demasiada sangria de manga ao almoço e há doze anos que estou para vir aqui. É hoje o dia. Estendo o bilhete como uma menina bem comportada e mergulho na escuridão, na luz azulada filtrada pelas toneladas de água e caminho para o aquário principal. O meu companheiro vai desfilando o nome dos peixes – aqui vai um tubarão, olha uma raia, um que já não me lembro do nome, este parece pacífico mas aquela cauda não é para brincadeiras. Mas, por cima de todos os peixes, quase à superfície, pairando como o astro-rei dos oceanos, obrigando-me a esticar o pescoço, está ele, imponente, gigante – o peixe-lua. Um colosso, ofusca tudo à volta. Olho para o peixe e penso porque é que me afastei tanto do mar, eu que nasci com umas barbatanas nos pés e umas braçadeiras para não morrer na fúria das ondas. Eu, que adormecia a ouvir o mar a rebentar nas rochas numa casa onde amarravam os barcos nos pilares para não fugirem durante a noite. O peixe-lua desceu do alto do aquário, devagar, majestoso, e veio cumprimentar-me. Soube-me a perdão, compaixão. Prometi-lhe amanhã visitar o mar da minha infância.
Conversas sobre Amílcar de Diana Andringa no Caminhos da Memória, Menos que humano de Alexandra Lucas Coelho no Diário de Reportagem, O Dia de Diana Ralha no (T)ralha.
Afinal o que importa não é a literatura
nem a crítica de arte nem a câmara escura
Afinal o que importa não é bem o negócio
nem o ter dinheiro ao lado de ter horas de ócio
Afinal o que importa não é ser novo e galante
- ele há tanta maneira de compor uma estante
Afinal o que importa é não ter medo:
fechar os olhos frente ao precipício
e cair verticalmente no vício
Não é verdade rapaz? E amanhã há bola
antes de haver cinema madame blanche e parola
Que afinal o que importa não é haver gente com fome
porque assim como assim ainda há muita gente que come
Que afinal o que importa é não ter medo
de chamar o gerente e dizer muito alto ao pé de muita gente:
Gerente! Este leite está azedo!
Que afinal o que importa é pôr ao alto a gola do peludo
à saída da pastelaria, e lá fora – ah, lá fora!
– rir de tudo
No riso admirável de quem sabe e gosta
ter lavados e muitos dentes brancos à mostra
Mário Cesariny, Nobilíssima Visão (1945-1946), in burlescas, teóricas e sentimentais (1972)
Visita matinal aos destaques na imprensa e ronda aos blogs. Entre conversas no restaurante com um megafone, ideias tresloucadas sobre a noção de indiscrição entre amigos, liberdade de opinião (privada ou pública), confiança e consciências pesadas, só tenho uma coisa a dizer: estão todos loucos e não é pouco e ninguém deu por isso. Apetece-me berrar na pastelaria a dizer que o leite está azedo.
5ª Sinfonia de Gustav Mahler pela Orquestra Sinfónica Metropolitana, direcção musical de Michael Zilm.
28 de Março, 17h, Grande Auditório do Centro Cultural de Belém
Quarto 702. Na varanda o homem de tronco nu à espera com dois flutes de champanhe. Não trocamos palavras. Aceito o copo. Olho a cidade. A besta. Como amo esta cidade hoje. As luzes aos nossos pés. Respiro o ar em golfadas. Cheira a infinito. Trago a bebida de rajada e estendo o copo vazio sem olhar para o homem. Sinto o copo novamente cheio na mão. Dou mais um golo.
– Despe-te.
Utilizo novamente a voz baixa, quase um sussurro, mas desta vez ligeiramente ríspida. É uma ordem. Eu pago. Tu despes. Simples. O homem entra no quarto. Ouço o som das roupas a caírem no chão nas minhas costas. Espero uns segundos. Fecho os olhos. Respiro a cidade mais uma vez. Entro no quarto. O homem está nu, deitado na cama. Por momentos não sinto nada. Vazio. Fico apenas parado a contemplar. Não sinto emoções e não as transmito. Quero que ele saiba quem manda. Poder.
– Fecha as janelas e corre as cortinas.
Sento-me numa poltrona e vejo-o a levantar-se da cama como um gato. Mexe-se lentamente, como se toda a acção decorresse em câmara lenta. Atravessa o quarto e fecha a janela suavemente. Corre as cortinas e fica de pé como se esperasse novas ordens. Tem um olhar tranquilo e por momentos apetece-me humilhar, apetece-me que rasteje. Que tenha medo. A sua tranquilidade perturba-me.
O homem torna a encher o meu copo. Abro o fecho das calças e olho-o com crueza. Acendo um cigarro, deslizo ligeiramente na poltrona. Fecho os olhos. Sinto-o a ajoelhar-se. Antevejo o prazer. É por isto que aguento esta merda toda. Estou no helicóptero a contemplar o monstro de betão, cabos eléctricos, nuvens, os milhões lá em baixo no asfalto a escaldar. A cidade a ferver, imensa, infinita. Fiz todos os pactos com o diabo, e agora, aqui estou, a sobrevoar a megalópolis. Dos filhos-da-puta que hei-de vencer, que hão-de aprender a respeitar-me. Lá em cima tudo faz sentido. Deus não me abandonou. Percebo as linhas mestras, o grande plano, sinistro como a cidade Dele. Sinto algo frio na nuca e as palavras
– Mexe-te um milímetro que seja, cabrão, e este quarto é a última coisa que vês na vida.
Abro os olhos e tudo permanece igual. O quarto, a cama, as cortinas fechadas, a luz suave quebrada pelo abajur, o quadro com a pintura rupestre, a jarra com as flores, o seu rosto sereno. A única diferença era o frio. O frio que sinto por cima do meu olho esquerdo. Incomodativo. Gélido. Tento encontrar as palavras certas no tom adequado à situação
– Isto faz parte do serviço?
Quando pronuncio a última sílaba sinto imediatamente que as minhas palavras contaminaram o ar, que se torna rarefeito, os meus pulmões começam a fechar. A luz parece-me ficar mais fraca. Deixo de sentir o frio e isso alivia-me momentaneamente. Uma pancada seca, vigorosa, sem hesitações, de quem sabe o que está a fazer, acerta-me na cabeça e foi quanto bastou para perder de vez o ar. Abram a janela, que se lixe o crime violento. A dor faz com que deixe de ouvir, um zumbido ensurdecedor preenche todos os recantos da minha cabeça. O zumbido preenche o quarto todo, do chão ao tecto, o meu corpo encolhe-se, não resta espaço para ele. Não sei se perdi os sentidos, quando o zumbido atenua o homem está vestido, sentado na cama. Onde antes sentia frio agora há calor. Um calor morno e húmido que alastra da minha têmpora e escorrega pela minha face. Desliza pelo meu olho, pela barba que está áspera. Sinto a face morna e repuxada pela fita adesiva. Não consigo mexer a boca nem o corpo que sinto pesado e morno. Não sinto o ar, respiro com dificuldade. O homem está imóvel, a arma está pousada ao seu lado. O homem espera. Percebo que continuo com a braguilha aberta.
(cont.)
Entra no velho teatro, passos largos, apressados, atravessa os corredores decrépitos, a patine a troçar dela, adivinha de que cor as paredes estão pintadas. Agora não tem tempo para adivinhas de estuque moribundo. Está atrasada, o ensaio já começou. Espalha-se ao comprido nos três degraus na entrada do camarim. Levanta-se, apanha os bocados de si mesma espalhados, atarraxa a perna esquerda com esforço, troca a roupa que traz pelo vestido, ata o laço nas costas, penteia o cabelo, sufoca os caracóis com ganchos, pinta-se como uma boneca espanhola e assim já a reconhecem: aqui está a Estela. Lá vai ela a correr para o palco.
– Cuidado com os degraus, Estela!
Cena III. Estela morreu. Os pulmões chiam, o coração chocalha o sangue, as pestanas abanam, o fígado dói, e, no entanto, está morta. Estela, ouve a música, é a tua preferida. Não queres dançar? Estela lê o telegrama com as más notícias mas não reage, Estela olha para o amante a soluçar, recebe os seus abraços mas nada sente. O urso do tambor parado com as baquetas no ar, o encenador a tirar a pala do olho esquerdo para ver melhor, os actores a aproximarem-se no palco e todos a gritar em coro:
– Esteeeelaaa!
Estela segura uma pequena caixa de madeira onde está o seu coração mas perdeu a chave. Olha perplexa para a mulher à sua frente de vestido, cabelo apanhado, pintada como um palhaço.
– Mas quem é esta? Quem é esta dupla de mim? pergunta.
Tenho a certeza inabalável que o alfarrabista das Escadinhas de São Cristóvão comunica comigo pelos títulos expostos na montra. O local onde o livro se encontra, se na segunda ou terceira prateleira, também é um pormenor importante. Hoje atirei um olho para dentro da loja – 2 metros quadrados, se tanto – e vi as suas mãos pousadas em cima de um livro, azuladas pela luz do écran do computador. É para que saiba que vou decifrando as mensagens e que tenho orgulho da minha insanidade galopante.
Vale a pena ler o texto sobre Manuel Serra da Joana Lopes no Entre as Brumas da Memória. Todas as mortes são tristes, mas umas marcam mais do que outras.
Old fashion, diz ele. Levou uns piropos no sábado à noite na pista de dança e consequentemente um apertão no pescoço do mais-que-tudo da atrevida. Agora diz que vai cantar, influências do Chet Baker. Encontrou (encontraram-no) no Facebook pessoas com as quais já não trocava palavras há vinte anos. Os gajos de há duas décadas atrás quando o pai morreu, todos juntos por causa da morte do Eduardo que deixou uma filha bebé. Eu, que não conheci o Eduardo, mas que mortos é o que não falta na minha vida, percebo a sua consternação a propósito da voracidade do tempo a passar. É estranho ter memórias com vinte anos, diz na esplanada encavalitada nos telhados de Alfama num dia de tréguas. Lembra-se do candeeiro que teve de apresentar. O pai morto e ele a explicar que não tinha interruptor, tocava-se no objecto e fazia-se luz. A explicar mecanismos inovadores com o mecanismo interior feito em papas. Afinal de que morreu Chet Baker? E onde anda o candeeiro? Isto é bonito. Um museu a céu aberto é o que é. As casas, o empedrado das ruas, as buganvílias, a agência funerária, o palacete com a velhinha. Vamos tocar à porta?, diz e eu, por pouco, não espeto o dedo na campainha. Na pista de dança a amiga frenética mantinha-se abstémia. "Eu sou concentrada, é só juntar água" diz ela e ele achou piada. Há um mundo novo nas pistas de dança, já tinha ouvido falar, mas não sabia que existia, diz ele.
Somos infalíveis na nossa escolha de amantes, particularmente quando precisamos da pessoa errada. Existe um instinto, uma força magnética ou antena que busca o inadequado.
Hanif Kureishi
Todos os dias fossem assim e encontrasse um post destes.
Serpenteio pelas ruas, o motor a roncar por cima dos trilhos dos eléctricos, o céu pardo, o cigarro na mão para pensar melhor. Dou duas voltas ao Panteão, passo no largo, hoje tão despido sem a feira da ladra. O mercado de Stª. Clara fechado. Um centro comercial a anunciar saldos, que juro que nunca antes vi. Falta aqui o bulício, falta gente, falta semana. Sempre me apeteceu vomitar aos domingos só por tédio. Por associação de ideias lembro-me que nunca vi um circo de pulgas e tenho pena. Imagino as pulgas no trapézio, aos saltos no trampolim, a saltar arcos em chamas. Sempre deve ser mais animado que o Panteão, solitário com a cúpula em obras, andaimes que parecem uma teia de aranha à cata de turistas voadores. Esta cidade adormecida. Decido estacionar no sítio mais inclinado que encontrei e seguir a pé. Passo na piscina, aquela em que prometi tantas e tantas vezes nadar contigo e nunca cumpri. Agora apetecia-me mergulhar, recuperar o tempo perdido, o último Verão. Se pudesse mergulhava de botas e sobretudo ignorando o termómetro emocional que está estragado. Olho para o rio e o casario e viro para o cotovelo à procura do prédio de azulejos castanhos. Nesta rua faltam uma dezena de números. Passa do número 20 para o 30 e tal sem explicação. Faltam seis prédios e quem lá vivia e ninguém deu por isso. Uma noite a rua estava completa, estavam os prédios e as pessoas a passar a ferro e a discutir, no dia seguinte eclipsaram-se. Ninguém pestanejou e a vida continuou. Indaguei dos prédios a um homem bonito que mora na rua do eclipse. Primeiro olhou para mim com desconfiança mas percebendo a falha ficou sem explicação, hipnotizado a olhar para a rua. Aposto que estão todos no circo de pulgas a desenvolver truques de ilusionismo. Subo os azulejos castanhos e troco juras de trabalho eterno, fujo ao anoitecer, procuro o carro, a rua está mais meio metro inclinada, mais um pouco o carro capotava e era uma trabalheira apanhar o animal umas colinas abaixo. A piscina continua a olhar para mim, maldito tanque de lágrimas.
a minha língua é a pátria portuguesa
coisas extraordinárias do gabinete
grandes crimes sem consequência
pequenas ficções sem consequência
LEITURAS
Agora e na hora da nossa morte - Susana Moreira Marques
Caixa para pensar – Manuel Carmo
Night train to Lisbon – Pascal Mercier
CIDADES