Em vez de escrever esta noite fui respirar.
Se num evento social o acaso proporcionar esbarrar no arqui-inimigo do seu inimigo, o gajo que tem os cães a ranger os dentes para atacar sem piedade, que nos dá palmadas nas costas e pergunta pela família, o desejo de vingança pode aflorar-lhe aos lábios. Eu não fiz uso de uma oportunidade semelhante, chocalhei as pedras com mais intensidade na bebida, olhei para uma mulher bonita, funguei ligeiramente e respondi que nunca estive tão bem, mas não deixei de sentir-me a psiquiatra do Tony Soprano quando virei as costas.
Dorothea Lange
É a única coisa que nunca deixei para trás. É a que mais revela sobre mim. Tem livros referentes às minhas três décadas de vida e de leitura e também vários que viajaram na família até ao porto seguro das minhas estantes. Faltam alguns essenciais, faz-me falta a capa acastanhada de um em particular. Já o comprei tantas vezes quantas as que ofereci a amigos, a amantes e a quem tinha cara de precisar de o ler. Já nem sei quantos exemplares já tive na minha posse e no entanto, mais uma vez, falta-me. Não bastava um blog para escrever sobre a minha biblioteca, é uma conversa sem fim à vista. Quando estou inquieto é nos livros que procuro as respostas. Percorro as lombadas a recordar livro a livro até me deter em algum em particular, às vezes tiro mais do que um, mas nunca falha, encontro sempre a fuga, o meio e se tiver sorte o fim. Esta noite encontrei um texto, uma sorte dos diabos, não é comum, e se não é o fim, é pelo menos uma direcção para o meu problema. O desafio é encontrar os livros seguintes. O jogo começa sempre assim.
A proliferação de campos de refugiados é um produto/manifestação tão integral da globalização quanto o denso arquipélago de nowherevilles através do qual se movem os membros da nova elite nas suas viagens ao redor do mundo. (...) Pelo que sabemos, as nowherevilles dos campos de refugiados – tal como as pousadas equidistantes em que se hospedam os comerciantes supranacionais capazes de viajar livremente – podem ser as cabeças-de-ponte de uma extraterritorialidade que avança, ou (numa perpectiva mais longa) laboratórios em que a dessemantização do lugar, a fragilidade e a decartalidade dos meios, a indeterminação e a plasticidade das identidades e, acima de tudo, a nova permanência da transitoriadade (todas elas tendências constitutivas da fase "líquida" da modernidade) são vivenciadas sob condições extremas: testadas como os limites da elasticidade e da submissão humanas, assim como as formas de atingir, foram testados nos campos de concentração no estado "sólido" da história moderna.
Amor Líquido, Zygmunt Bauman
Vira o disco e toca o mesmo.
Hoje tentei não pensar em ti mas falhei.
Assim que tenho visto que näo há coisa melhor do que alegrar-se o homem nas suas obras, porque essa é a sua porçäo; pois quem o fará voltar para ver o que será depois dele?
Eclesiástico
Atirar um bezerro para o fogo sagrado, oferecer a colheita, lançar um desgraçado aos leões. Tudo coisas fora do meu alcance. Os deuses estão fulos comigo e não há forma de os apaziguar.
...e antes que já não haja tempo e o corropio nos apanhe desprevenidos, eu confesso, e como não o posso fazer aos teus ouvidos em palavras aveludadas em que daria pequenos estalinhos com a língua para enfatizar os pontos menos importantes, porque se assim fosse o mais certo era já não dizer nada e fechar os olhos para sentir melhor, é preferível que avance sem hesitações, talvez comece por dizer que é minha convicção sermos mais livres se vivermos em vez de projectarmos essas ideias insanas que nos abrigam a obedecer, que não seriamos felizes se não fizéssemos assim ou assado, que nos faltaria uma parte vital, como o baço ou um pulmão, sei lá, se não obedecermos à ordem estabelecida, de nascer, conceber, parir, moer o juízo a toda a gente e morrer sem grande alarido, e essa outra tão moderna, do amor ser uma coisa definida que não há anormal que não saiba enumerar quando nasce e morre e o que é preciso para ser um grande romance, e não há estafermo que lembre que a noção de amor romântico nem sequer existia há umas décadas atrás, e assim como assim, empaturramo-nos de filmes tão prenhos dessa noção suburbana de viver às colheradas, dizem eles que é viver, mas, sinceramente, penso que podemos fazer melhor do que isso, ou então tragam-me o revólver porque isto é uma chachada, e talvez aproveite para contar também agora que não acredito na vida depois da morte, e se estiver errado depois logo vejo quando chegar ao céu que é o inferno que mereço com certeza, mas dizia eu, talvez pudéssemos fazer melhor, poderíamos pensar nisso, haverás de pensar que falo muito, mas vais demorar algum tempo a perceber que é bom sinal, o pior é quando me calo, quando as palavras secam em mim e nada encontro para dizer, quando a preocupação em mim morre e por vezes vivo num silêncio tão grande que é impossível voltar atrás, é como se tudo estivesse dito e não houvesse palavras a acrescentar, portanto deixa-me dizer isto, antes que feche os olhos para sentir melhor e já não haja tempo para ouvir e nessa agonia de falarmos e não ouvirmos grandes coisas ficarão por dizer ao ouvido um do outro.
Um fim-de-semana a contar segundos.
Ou como realizar um murro no estômago com pouco dinheiro, uma rapariga e um cão. Um road movie no inferno da indiferença, desespero e impotência. A melhor coisinha que anda aí, ide ver.
O caso mais vergonhoso de corrupção dos últimos tempos assemelha-se a uma má relação sentimental com todos os ingredientes de uma telenovela estafada. Domingos Névoa está para a Câmara de Lisboa como algumas pessoas estão na vida amorosa.
No início era a relação perfeita a caminhar em passos rápidos para o casamento ideal. Como dote foram distribuidas uma luvas aqui, uns barretes acolá, tudo em prol da limpeza de um terreno com uns carrosséis decrépitos. O noivado corria bem até o administrador da empresa ter sido gravado em pleno acto de sedução a um vereador mais afoito. Inicialmente parecia um caso simples, apanhado numa gravação que não deixava margem de dúvida da sua intenção criminosa era esperado que fosse condenado. À prisão. Muitas idas ao tribunal depois, são os irmãos Sá Fernandes a serem condenados a pagar uma indemnização ao corrupto, que de vilão passou a vítima. Absurdo? O colectivo de juízes considerou que os actos que pretendia que fosse praticado pelo vereador não constavam da esfera de acção do mesmo. Por conseguinte, não preenchia a factualidade típica do crime de corrupção activa de titular de cargo político. O corrupto ilibado garante que não tem problemas de consciência e que voltaria a fazer o mesmo. E, já agora, os tipos que o andaram a difamar que lhe paguem uma indemnização que ele perdeu muito com este processo.
Quem passa pela antiga Feira Popular e vê o extenso terreno vazio é obrigado a tirar várias conclusões: a corrupção compensa, o desfecho do caso é um claro sinal a todos as pessoas que se encontrem em situação semelhante que a melhor decisão a tomar é aceitar o dinheiro e calar. Ao percebermos o modus operandi do corrupto, o discurso amoroso com que seduz vereadores, percebemos que é homem que está habituado a isso, não era com certeza a primeira vez que seduzia, foi é provavelmente a primeira vez que levou uma tampa. Ainda assim saiu-se bastante bem. Não está a ver o sol aos quadrados e até garante que podendo voltar ao trabalho irá ser uma peça fundamental no combate à crise económica. Nós não duvidamos do futuro da sua carreira de falinhas mansas.
Estava convicto que o único terreno sem leis era o amoroso, devido à sua natureza volúvel e em constante mudança por depender de sentimentos, uma coisa muito difícil de ordenar, quantificar ou catalogar. Agora aumentei o meu âmbito de percepção, a corrupção sentimental obrigou-me a isso.
A ignorância tem alguma inconveniência. Quando se junta à estupidez, não há remédio.
José Saramago (1922- 2010)
O amor pode morrer na verdade, a amizade na mentira.
Abel Bonnard
e se não tiver?, respondi-me
tens de tar, respondi-me de volta
isso é mais fácil de dizer do que tar
se calhar devias ter pensado nisso antes
não tás a ajudar
se querias ajudar o melhor era teres-Lhe dado um cabrito
em vez de o teres morto
não é que tenha pensado muito no que tava a fazer
queres dizer que mataste Deus num repente?
achas cas pessoas vão levar a mal?
se calhar
Depois de morrer aconteceram-me muitas coisas, Ricardo Adolfo
A delicadeza e a dignidade é o próprio coração que ensina e não um mestre de dança.
Dostoiévski
O socialismo é os sovietes mais a electricidade.
Lenine
Não é por se acreditar cegamente em algo que a verdade é fundamentada.
Hoje pensei intensamente em ti enquanto olhava para os contentores.
Ainda não tínhamos chegado ao evento e já me sentia a flutuar. O passeio junto ao rio pejado de estrangeiros a beber cerveja e a ver o jogo do mundial. A França a perder e os tipos quase a chorarem. Depois havia a rapariga bonita a vender flores que fazia beicinho. As pessoas em nervoso crescente porque tínhamos de chegar a horas, como se neste país alguma coisa andasse a par do relógio. Eu a gozar o pratinho secretamente porque não gosto de ofender pessoas nervosas e convictas. Despejamos umas imperiais e eu via tudo menos o futebol, porque o exotismo acertou-me em cheio, não havia compatriotas na esplanada nem no passeio, e, subitamente, pareceu-me que estava numa cidade do sul com uma grande tempestade a aproximar-se. Quando chegámos ao evento comecei a pairar. No bar o empregado está desconsolado porque o que não falta são garrafas. Copos é que não. Ficamos os dois a olhar um para o outro e ele saí-se com esta, está à espera que as pessoas voltem com os copos. Olho para o grande evento ao fundo, debaixo da ponte, os contentores, a estrutura que nunca ninguém descobriu para o que serve, parece uma Sydney rasca em miniatura, olho outra vez para o gajo e sorrio enquanto penso estas merdas só a mim. Rodo os sapatos e sigo para o grande evento. Os contentores fechados, milhares de pessoas a chegarem, vejo gente a vir da embaixada, vejo plumas, vejo o chão de gravilha, péssimo para saltos, vejo aquilo tudo e não vejo nada. Depois um estoiro e mais um. Os estoiros ficam a animar o evento. Damos a volta aos contentores. Nada. Só gravilha e pessoas. Parece que são gravações de máquinas de lançamento de bolas de ténis. E eu sem a minha raquete electrificada. Está um vento de feição que é uma maravilha. Bom para velejar. O ruído da ponte a marcar o tempo e a máquina de bolas a disparar. Dou por mim a pensar que é a maior desgraça a que já me lembrei de comparecer ou a melhor de todas. Depois olho com atenção para aquilo tudo e não tenho dúvidas, é realmente a coisa mais bizarra a que já fui nesta cidade.
Seis meses a escrever, a martelar letras, a recolher sonhos alheios, a criar ficção, a viver na narrativa, a apaixonar-me pelas palavras dos outros, a perder aviões pelo mundo virtual, a regatear pela memória, a cinzelar momentos, a triturar ideias, a dormir em cima do teclado, a odiar palavras esdrúxulas, a tirar a gravata, a observar fronteiras, a rir-me do óbvio, a registar silêncios, a chorar desconhecidos, a acordar com as teclas na cara, a ironizar desgraças, a viajar em cavalos-de-tróia, a pensar em imagens, a planear imperfeições, a imaginar pontes, a colocar tudo em causa, a receber mensagens imaginárias, a digerir o mundo, a correr atrás de uma obsessão.
Hoje tive pena de não ouvir a tua voz.
Acabei de passar por uma mercearia que não tinha um único nome de fruta escrito correctamente. Logo à porta anunciava cereijas a 2 euros. Mesmo assim não chega aos calcanhares da mercearia na rua da Atalaia que ontem vendia brokulos.
Obrigadinho, Rui Pedro Soares.
Se não podes vencer os loucos junta-te a eles.
Uma noite estranha, quando saímos chovia copiosamente, atravessámos o edifício em direcção ao jardim à procura do carro. Para trás ficou uma inauguração, pessoas, imagens e sons, bebi dois copos e saí em passo de corrida a tentar acompanhar o teu ritmo frenético. Falas muito, dizes asneiras, podias ser meu pai e eu tenho ganho respeito a cada dia que passa. Tenho na cabeça um dilema, urge tomar decisões e para isso é necessário ter a certeza se o meu pensamento está correcto ou padece de verificação. És a pessoa perfeita para essa tarefa e digo-te, meu amigo, raramente ouço alguém, tens de ter algo especial em ti para que toda a minha atenção esteja contigo e pondere cada palavra que dizes. Aproveito a viagem pela cidade à mercê da tempestade tropical para fazer perguntas cirúrgicas com total economia de palavras, não quero dizer uma única a mais. Interessa-me neste momento ouvir. E tu dizes mais do que alguma vez poderia esperar enquanto conduzes como um maníaco pelas avenidas alagadas. Falas-me da obsessão que tem de existir para que um trabalho seja consistente. Indicas-me a obsessão específica de cada um dos artistas, dissecas as particularidades que conduzem trabalho a trabalho para que um dia se possa chamar obra. E dizes muito mais, o suficiente para compreender a essência da obsessão. Aquilo que procurei durante tanto tempo mas que nunca consegui nomear. Para isso teria de te conhecer, esperar a tempestade chegar, percorrer a cidade contigo e ouvir as tuas palavras. No momento em que desligaste o carro e disseste mais uma asneira, eu já tinha colocado tudo em causa.
a minha língua é a pátria portuguesa
coisas extraordinárias do gabinete
grandes crimes sem consequência
pequenas ficções sem consequência
LEITURAS
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Caixa para pensar – Manuel Carmo
Night train to Lisbon – Pascal Mercier
CIDADES