Sexta-feira, 25 de Junho de 2010

 

Esta não foi das melhores. Também não está na categoria das péssimas ou muito, muito más, que já as vivemos e preferimos não repetir. Aquela noite em que tive de fazer pressão sobre um pulmão perfurado por uma navalha. A outra em que despistei o carro numa ponte e acabei a falar com um desconhecido debaixo de um dilúvio. E aquela em que chorei tanto. Esta não entra nessa categoria, está até muito longe, mas teve qualquer coisa de azedo. Há frases que nem nas melhores noites toleramos ouvir. 



publicado por afonso ferreira às 02:44 | link do post | comentar | ver comentários (1)

Quinta-feira, 24 de Junho de 2010

 

 

Start were you are.

Do what you can.

Use what you have.



publicado por afonso ferreira às 14:05 | link do post | comentar | ver comentários (2)

 

 

Começar o dia a subir ao jardim mais alto da cidade e depois descer devagarinho. Respirar profundamente.



publicado por afonso ferreira às 13:59 | link do post | comentar

 

E depois, apesar de tudo, há noites em que se respira. Combinamos jantar com um amor do passado no sítio onde estivemos tantas vezes. O passado arrasta um presente que desconheço, mas penso que agora chama-se família moderna – os amigos. O equivalente a dizer que éramos muitos à mesa e que eu recordei porque é que ainda hoje digo antigo amor. Esta capacidade de rir e de juntar pessoas à mesa, esta mania que tu tens de arrancar-me gargalhadas. E entre o peixe e o vinho falamos muito, cada vez mais, sobre o passado. Mas esta noite o passado é leve e é composto de vassouras para sintonizar a televisão, botas botildes roxas que ficavam sempre sem sola, os resquícios de memórias dos tempos pós-revolução. É um jantar farto, de comida e de amigos, em bancos corridos no largo debaixo das árvores.


Fazemo-nos ao caminho para o baile. A banda está a aquecer, o salão é quente, as bebidas estão mornas, é um contra-senso dizer que se respira e no entanto. À primeira dança fico petrificado a olhar para o par, eu não sabia que se podia dançar assim, são dois corpos em sintonia, perfeitos, circulares, tenho dificuldade em reconhecer as pessoas com que ceei. O salão transforma-se, são muitos pares agora, há uma energia frenética no ar, há conversas, encontros, pulos. A cada música os pares separam-se e voltam-se a combinar novos, junto à banda deixo-me ir. E danço, danço e esqueço tudo, deslizo para o momento em que atingimos a sintonia, duas corpos movimentam-se como um só, seguindo compassos sem pensar. Na última dança, saio e vejo-me, os movimentos, os passos, tenho a mão esquerda nas tuas costas e na direita os meus dedos estão entrelaçados nos teus. Percebo que não o fiz nas outras danças, nem com os outros pares, e não sei se o decidi fazer ou não, quando saio de mim é assim que a vejo, entrelaçada. E no meio da música respirei fundo, muito fundo.



publicado por afonso ferreira às 02:50 | link do post | comentar

 

 

 

Esta é uma história de que Alberto Caeiro gostaria. O Saramago da Azinhaga cresceu e a sua imaginação acabou por abarcar tudo de todas as maneiras. Padres barrocos e voadores, blimundas e baltasares, uma península que se desprende mar adentro, uma palavra mudada num livro, um poeta pela cidade em busca do poeta que o inventou, a cidade onde todos ficam cegos, um funcionário opaco numa conservatória do registo civil, um messias relutante e revoltado, um elefante em viagem, tudo. E mais polémicas, e indignações, e ideais, e o planeta e a humanidade e tudo. E depois ele mesmo, e um amor encontrado que nem na imaginação dele caberia, e uma mudança para uma ilha estranha, vulcânica. Nessa ilha construiu a sua casa, que com orgulho dizia ter sido feita apenas com as suas histórias, as suas ideias, as suas palavras. O Saramago da Azinhaga e o mundo que ele fez com vinte e poucas letras do alfabeto.

 

Rui Tavares

 

 

Seria justa a presença de um Presidente no adeus ao Nobel; mas não este: Cavaco e Saramago não quereriam cruzar-se mais. Nem mortos. E se Cavaco poderia ser obrigado - por dever profissional - a comparecer, neste caso o "interesse nacional" não se sobrepõe à vontade de Saramago.

Rui Passos Rocha



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Não perdoo nem faço tenções de esquecer.



publicado por afonso ferreira às 01:51 | link do post | comentar

Quarta-feira, 23 de Junho de 2010

A maioria das pessoas que reconheço um humor bastante acima da média são geralmente consideradas pelos outros irascíveis.



publicado por afonso ferreira às 23:55 | link do post | comentar | ver comentários (1)



publicado por afonso ferreira às 22:56 | link do post | comentar | ver comentários (3)


Viajava hoje no eléctrico 28 com as duas crias. Dizia coisas como a música existe para dar significados que as palavras não têm. O mais velho da plateia não tinha mais de cinco anos. Não contando comigo.



publicado por afonso ferreira às 21:45 | link do post | comentar | ver comentários (3)

 

Quando leio isto sinto medo. A impotência na defesa perante os outros, à mercê da vontade de saber e da natureza humana. Quando leio isto recordo os telefones com os grampos, lembro-me de desligarmos quando ouvíamos o ruído metálico, recordo-o a olhar pela janela a ver a carrinha estacionada à nossa porta, de nos entrarem em casa em busca de papéis, os papéis todos espalhados no chão, e o que recordo mais vivamente, a vez em que a janela estava aberta e todos garantimos quando chegámos a casa que ninguém a tinha deixado assim. E contudo, apesar do passado, diria que a noção de segurança é uma coisa inata em mim, recentemente tive de aprender regras básicas como fechar sempre a porta à chave. Mas o que eu tenho medo, é do assalto à privacidade, do terrorismo íntimo, e por muitas voltas à chave que dê, nunca saber se é suficiente. 

 



publicado por afonso ferreira às 12:34 | link do post | comentar | ver comentários (1)

Em vez de escrever esta noite fui respirar.



publicado por afonso ferreira às 02:46 | link do post | comentar

Terça-feira, 22 de Junho de 2010

 

Se num evento social o acaso proporcionar esbarrar no arqui-inimigo do seu inimigo, o gajo que tem os cães a ranger os dentes para atacar sem piedade, que nos dá palmadas nas costas e pergunta pela família, o desejo de vingança pode aflorar-lhe aos lábios. Eu não fiz uso de uma oportunidade semelhante, chocalhei as pedras com mais intensidade na bebida, olhei para uma mulher bonita, funguei ligeiramente e respondi que nunca estive tão bem, mas não deixei de sentir-me a psiquiatra do Tony Soprano quando virei as costas.



publicado por afonso ferreira às 11:29 | link do post | comentar

 

 

Dorothea Lange

 

É a única coisa que nunca deixei para trás. É a que mais revela sobre mim. Tem livros referentes às minhas três décadas de vida e de leitura e também vários que viajaram na família até ao porto seguro das minhas estantes. Faltam alguns essenciais, faz-me falta a capa acastanhada de um em particular. Já o comprei tantas vezes quantas as que ofereci a amigos, a amantes e a quem tinha cara de precisar de o ler. Já nem sei quantos exemplares já tive na minha posse e no entanto, mais uma vez, falta-me. Não bastava um blog para escrever sobre a minha biblioteca, é uma conversa sem fim à vista. Quando estou inquieto é nos livros que procuro as respostas. Percorro as lombadas a recordar livro a livro até me deter em algum em particular, às vezes tiro mais do que um, mas nunca falha, encontro sempre a fuga, o meio e se tiver sorte o fim. Esta noite encontrei um texto, uma sorte dos diabos, não é comum, e se não é o fim, é pelo menos uma direcção para o meu problema. O desafio é encontrar os livros seguintes. O jogo começa sempre assim.

 

 

A proliferação de campos de refugiados é um produto/manifestação tão integral da globalização quanto o denso arquipélago de nowherevilles através do qual se movem os membros da nova elite nas suas viagens ao redor do mundo. (...) Pelo que sabemos, as nowherevilles dos campos de refugiados – tal como as pousadas equidistantes em que se hospedam os comerciantes supranacionais capazes de viajar livremente – podem ser as cabeças-de-ponte de uma extraterritorialidade que avança, ou (numa perpectiva mais longa) laboratórios em que a dessemantização do lugar, a fragilidade e a decartalidade dos meios, a indeterminação e a plasticidade das identidades e, acima de tudo, a nova permanência da transitoriadade (todas elas tendências constitutivas da fase "líquida" da modernidade) são vivenciadas sob condições extremas: testadas como os limites da elasticidade e da submissão humanas, assim como as formas de atingir, foram testados nos campos de concentração no estado "sólido" da história moderna. 

Amor Líquido, Zygmunt Bauman



publicado por afonso ferreira às 03:01 | link do post | comentar

Vira o disco e toca o mesmo.

 




publicado por afonso ferreira às 02:53 | link do post | comentar | ver comentários (2)

Hoje tentei não pensar em ti mas falhei.



publicado por afonso ferreira às 01:52 | link do post | comentar

Assim que tenho visto que näo há coisa melhor do que alegrar-se o homem nas suas obras, porque essa é a sua porçäo; pois quem o fará voltar para ver o que será depois dele?

Eclesiástico



publicado por afonso ferreira às 01:26 | link do post | comentar

 

 

 

A contas com o bem que tu me fazes 
A contas com o mal por que passei 
Com tantas guerras que travei 
Já não sei fazer as pazes 

São flores aos milhões entre ruínas 
Meu peito feito campo de batalha 
Cada alvorada que me ensinas 
Oiro em pó que o vento espalha 

Cá dentro inquietação, inquietação 
É só inquietação, inquietação 
Porquê, não sei 
Porquê, não sei 
Porquê, não sei ainda 

Há sempre qualquer coisa que está pra acontecer 
Qualquer coisa que eu devia perceber 
Porquê, não sei 
Porquê, não sei 
Porquê, não sei ainda 

Ensinas-me fazer tantas perguntas 
Na volta das respostas que eu trazia 
Quantas promessas eu faria 
Se as cumprisse todas juntas 

Não largues esta mão no torvelinho 
Pois falta sempre pouco para chegar 
Eu não meti o barco ao mar 
Pra ficar pelo caminho 

Cá dentro inqueitação, inquietação 
É só inquietação, inquietação 
Porquê, não sei 
Porquê, não sei 
Porquê, não sei ainda 

Há sempre qualquer coisa que está pra acontecer 
Qualquer coisa que eu devia perceber 
Porquê, não sei 
Porquê, não sei 
Porquê, não sei ainda 

Cá dentro inquietação, inquietação 
É só inquietação, inquietação 
Porquê, não sei 
Mas sei 
É que não sei ainda 

Há sempre qualquer coisa que eu tenho que fazer 
Qualquer coisa que eu devia resolver 
Porquê, não sei 
Mas sei 
Que essa coisa é que é linda


publicado por afonso ferreira às 00:39 | link do post | comentar

Segunda-feira, 21 de Junho de 2010

 

Atirar um bezerro para o fogo sagrado, oferecer a colheita, lançar um desgraçado aos leões. Tudo coisas fora do meu alcance. Os deuses estão fulos comigo e não há forma de os apaziguar.



publicado por afonso ferreira às 15:45 | link do post | comentar



publicado por afonso ferreira às 03:47 | link do post | comentar | ver comentários (2)

 

...e antes que já não haja tempo e o corropio nos apanhe desprevenidos, eu confesso, e como não o posso fazer aos teus ouvidos em palavras aveludadas em que daria pequenos estalinhos com a língua para enfatizar os pontos menos importantes, porque se assim fosse o mais certo era já não dizer nada e fechar os olhos para sentir melhor, é preferível que avance sem hesitações, talvez comece por dizer que é minha convicção sermos mais livres se vivermos em vez de projectarmos essas ideias insanas que nos abrigam a obedecer, que não seriamos felizes se não fizéssemos assim ou assado, que nos faltaria uma parte vital, como o baço ou um pulmão, sei lá, se não obedecermos à ordem estabelecida, de nascer, conceber, parir, moer o juízo a toda a gente e morrer sem grande alarido, e essa outra tão moderna, do amor ser uma coisa definida que não há anormal que não saiba enumerar quando nasce e morre e o que é preciso para ser um grande romance, e não há estafermo que lembre que a noção de amor romântico nem sequer existia há umas décadas atrás, e assim como assim, empaturramo-nos de filmes tão prenhos dessa noção suburbana de viver às colheradas, dizem eles que é viver, mas, sinceramente, penso que podemos fazer melhor do que isso, ou então tragam-me o revólver porque isto é uma chachada, e talvez aproveite para contar também agora que não acredito na vida depois da morte, e se estiver errado depois logo vejo quando chegar ao céu que é o inferno que mereço com certeza, mas dizia eu, talvez pudéssemos fazer melhor, poderíamos pensar nisso, haverás de pensar que falo muito, mas vais demorar algum tempo a perceber que é bom sinal, o pior é quando me calo, quando as palavras secam em mim e nada encontro para dizer, quando a preocupação em mim morre e por vezes vivo num silêncio tão grande que é impossível voltar atrás, é como se tudo estivesse dito e não houvesse palavras a acrescentar, portanto deixa-me dizer isto, antes que feche os olhos para sentir melhor e já não haja tempo para ouvir e nessa agonia de falarmos e não ouvirmos grandes coisas ficarão por dizer ao ouvido um do outro.



publicado por afonso ferreira às 01:46 | link do post | comentar

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