Quarta-feira, 13 de Outubro de 2010

A velha ideia publicitária de utilizar o sexo para vender produtos rascas emigrou para a ficção* nacional.

 

* Não confundir com literatura.



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publicado por afonso ferreira às 00:46 | link do post | comentar | ver comentários (1)

Terça-feira, 12 de Outubro de 2010

Na televisão os Sharks comem os Leopards vivos. 42 pontos para os tubarões contra os 6 dos adversários. O meu bife aparece num prato com uma vaca em relevo e no palco tocam o Hotel California e depois outra música que o vocalista grita o refrão com os pulmões no máximo – relax, relax, relax. Há um homem muito, muito alto que está enamorado por uma rapariga muito baixa. Parece que ele está mais interessado do que ela, mas pode ser uma ilusão pela forma como é obrigado a curvar o corpo para a ouvir. Não estão à vontade, estranham-se. Disfarçam o embaraço pedido bebidas, falando com os amigos, olhando para o palco. Subitamente escorre uma bebida pelas tábuas do piso superior para a mesa. Tento salvar o prato das batatas. Lá fora há uma tempestade a estrangular a cidade e eu pondero se os enamorados terão vida para além do pub.



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Segunda-feira, 11 de Outubro de 2010

 

A inspiração aparece nos momentos mais inesperados. Foi necessário relembrar o filme A Festa com uma dinamarquesa que fala português do Brasil, dormir apenas três horas e um fim-de-semana agitado em termos sociais para encontrar uma solução para a tão malograda telenovela. De madrugada, numa festa à pinha, tive uma pequena epifania, certamente embalado pela excitação avulsa no bar com bebidas à descrição, e recordei a noite em que fui à pior festa de natal que recordo. Um momento de convívio que deixou-me à beira de trucidar renas no caminho para casa. Felizmente, como o evento descrito decorreu no último natal recordo com vivacidade os pormenores. Parece-me perfeito como momento catalisador de tensão para captar a atenção dos espectadores. Embora seja necessário mais uma vez diminuir a idiotia de certos diálogos reais no intuito de parecerem credíveis e acrescentar mais umas características arrepiantes  – o protagonista não fecha a porta da casa de banho e não corta as unhas – para disfarçar a verdadeira intenção do relato desse episódio: nunca ir a festas de natal de amigos dos amigos. Para fretes já bastam os nossos.



publicado por afonso ferreira às 13:14 | link do post | comentar

 

 

 

Cada época sonha não apenas a próxima, mas ao sonhar, esforça-se em despertar. Traz em si mesma o seu próprio fim e o desenvolve – como Hegel já o reconheceu – com astúcia. Com o abalo da economia de mercado, começamos a reconhecer os monumentos da burguesia como ruínas antes mesmo do seu desmoronamento.

Walter Benjamin, Passagens



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Domingo, 10 de Outubro de 2010

Algumas ausências só são importantes até ao dia em que descobrirmos que não fizeram falta nenhuma.

 



publicado por afonso ferreira às 23:00 | link do post | comentar | ver comentários (4)

Em cada esquina, promessas de sentimentos em saldos, a vida amorosa anda barata.



publicado por afonso ferreira às 16:38 | link do post | comentar | ver comentários (2)

Sábado, 9 de Outubro de 2010

Há coisas impossíveis de colocar em palavras, ou são vividas ou não. 



publicado por afonso ferreira às 14:56 | link do post | comentar | ver comentários (3)

Sexta-feira, 8 de Outubro de 2010

O céu caiu sobre a cidade.



publicado por afonso ferreira às 16:51 | link do post | comentar

Acordar e começar o dia com telefonemas, saber novidades, constatar que o absurdo é o limite. Alerta amarelo para todo o país e eu com um sorriso estampado na cara tão pouco conveniente com o estado do tempo.



publicado por afonso ferreira às 11:29 | link do post | comentar

 

Quando saímos a tempestade tinha suavizado mas vandalizou o que restava do Verão. As árvores estavam torcidas, os ramos tombados, as folhas ainda verdes em desalinho, era necessário um desvio constante aos charcos. Avançamos a pé pela avenida, falamos de cinema e guiões, à direita vislumbro o gradeamento. Grades talvez não seja o termo correcto. Não recordo a palavra. Arame, muito arame a cercar um quarteirão imenso. Vedação, talvez. Dentro do quarteirão não vejo a torre, não existe o edifício a escavar o céu. Em vez dele vejo carros e um pré-fabricado com o nome da firma. Carros em segunda mão e nada de betão. É como se faltasse um dente à avenida. 



publicado por afonso ferreira às 01:30 | link do post | comentar

Quinta-feira, 7 de Outubro de 2010

A vingança é uma espécie de justiça selvagem.

Francis Bacon



publicado por afonso ferreira às 17:31 | link do post | comentar

Na hora de almoço contei seis cegos. A atravessar a praça, à espera do metro, no banco do jardim em amena conversa. Senti-me a minoria como no livro de Saramago.



publicado por afonso ferreira às 17:09 | link do post | comentar

Os vários vídeos que circulam na internet onde o primeiro ministro é constantemente apresentado a dar o dito por não dito recorda-me algumas pessoas que conheci ao longo da vida. As suas intenções são sempre as melhores e a perfídia é o que distingue os outros nas suas rebuscadas e confrangedoras explicações, no entanto falham sempre enquanto confrontados com a realidade. 



publicado por afonso ferreira às 16:53 | link do post | comentar

Mais logo, no Mercado da Ribeira procure a Rosa. Uma edição especial da Moda Lisboa com um texto deste vosso escravo e mais uma série de coisas. Fotografias de Lisboa antiga e dos mercados, pregões, Pessoa, Eça, O'Neill, e até uma maravilhosa tabela com a safra dos peixes de mar. 



publicado por afonso ferreira às 11:47 | link do post | comentar

 

 



publicado por afonso ferreira às 10:55 | link do post | comentar

A vingança geralmente atinge dois objetivos: ou traz consolo a quem sofreu a injúria, ou lhe traz segurança para o futuro.

Séneca


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Quarta-feira, 6 de Outubro de 2010

 

Um telefonema rápido que derivou numa longa conversa. Contou-me o seu dia em detalhe, com trinta anos de experiência a esticar leis na barra do tribunal, hoje o dia pediu-lhe que fosse testemunha. Um encontro fatal entre uns polícias e uma estrangeira sem papéis deram à manivela na máquina do mundo e pariram os eventos que narrou. Um dia passado entre a polícia, o tribunal, no labirinto de várias línguas e países. Jugoslávia, França, Espanha, Portugal, a viagem que foi necessária para este momento nascer. Conta-me muitas coisas, a advogada nova prepotente que foi preciso dar uns berros para acalmar; os polícias a intimidarem, a tentarem calcar o medo; a desorientação dos estrangeiros; a tempestade das traduções selvagens. Mas o que contou com mais pormenor foi a sandes. Com alface e tomate, foi desfeita e remexida até não se parecer com nada, ou não não fosse possível ir disfarçada uma arma na maionese. A sandes, simbolo máximo do absurdo labirinto em que as nossas vidas tornaram-se.



publicado por afonso ferreira às 22:21 | link do post | comentar



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Campo Mártires da Pátria, 1940

 

Começar o dia de trabalho no jardim, sol e cidade à volta. Olhar para o relógio e perceber que há tempo, coisa rara. Pedir um café, acender um cigarro. Só seria possível viver no Campo Mártires da Pátria se morasse no jardim ao lado da toca dos pavões. Volto a fazer contas ao tempo, horas, ainda tenho horas pela frente. Abro o laptop para escrever e tento apanhar uma rede. É suposto haver internet nos jardins mas não há. Faço uma tentiva de roubar a rede da embaixada ou alguma que esteja à solta. Não sou bem sucedido. Depois de várias investidas apanho uma. Chama-se morte. Assim mesmo, morte. Penso que é um péssimo sinal ligar-me a uma rede com um nome destes mas mesmo assim avanço. Tenho uma formiga a gingar por entre as teclas. Enquanto aguardo se sou bem sucedido com a morte olho com mais atenção para o jardim. Um grupo de muçulmanas passeia duas crianças. Estão cobertas da cabeça aos pés, umas mortalhas a andar pela relva. E mais adiante a estátua. Centenas de placas, mãos e ossos de cera, tantas promessas, tanta doença. Bebo o café. A morte está a fazer-se difícil. Segunda tentativa. Passa um amolador, bicicleta e assobio. Isto não é uma manhã, é um quadro a respirar, a destilar vida. Semicerro os olhos e ao longe vejo os enforcados que deram o nome ao sítio, ao fundo a praça de touros. Faltam os vendedores da feira da ladra para compor a imagem. Não, lá estão eles também. A morte não quer nada comigo. Desligo o computador e olho novamente para o relógio. Tanto tempo para pensar.



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