Um mês depois do acidente decido voltar à carga. Enquanto aperto o capacete ainda franzo um sobrolho – quem diz que todos os traumas pedem para ser superados? Na faixa do bus na avenida os táxis ultrapassam-nos a centímetros da minha perna que ainda chia desde o embate. Ao menos tenho alcatrão, sempre parece mais suave que os outros pedragulhos. Vou com o mesmo companheiro de infortúnio e desta vez vamos muito calados. Logo na primeira rua passamos um vermelho e podia jurar que vi chapas retorcidas, vidros estilhaçados, bocados de borracha a ferver no alcatrão. Mas nada acontece. É apenas uma noite tranquila de primavera, dois ou três carros a cirandar, nada a assinalar. No fim, enquanto tiro o capacete e parodio a viagem, apercebo-me das mãos a suar.
a minha língua é a pátria portuguesa
coisas extraordinárias do gabinete
grandes crimes sem consequência
pequenas ficções sem consequência
LEITURAS
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Caixa para pensar – Manuel Carmo
Night train to Lisbon – Pascal Mercier
CIDADES