Quinta-feira, 18 de Fevereiro de 2010

 

Sinto-me mal. Borboletas nas entranhas, um ferro espetado da têmpora ao ouvido. Um zumbido constante, uma música sinistra nas veias azuis fininhas dos pulsos. É o veneno a actuar. Sento-me à mesa e obrigo o corpo a funcionar. Entrada, álcool, bife, cafés. Olear a maquinaria. Dizes-me com ar carrancudo que não posso falar da minha geração, tenho que falar por mim, um indivíduo apenas, uno. Eu, com o organismo único desfeito em partículas ácidas, reafirmo que a minha geração chegou ao poder. Esta semana estão todos zangados, a ser despedidos ou a caminho da prisão, um festim. É mesmo caso para falar de geração, é uma identificação clara. Não percebes nem o meu ponto de vista nem a ironia e, como um quadro vivo, o ex-assessor na travessia do deserto senta-se na mesa ao lado. Não digo nada mas olho para o camelo e vejo o miserável estado da nação. Nos jornais pendurados na parede do café está a geração na primeira página a caminho do cadafalso. Toma lá estas fotografias tão bonitas, que eu não posso falar senão vomito. No espelho da casa de banho confirmo se as olheiras estão no sítio, se hoje os ossos estão mais à mostra. Tudo como esperado, saio mais descansado. Queres ir beber champanhe e eu prefiro ir comprar livros e ruminar o veneno a andar na rua gélida. Na livraria roubas-me um beijo na fila da caixa e eu sinto-me infantil. Que não, não, não posso finalizar as coisas assim, tenho de reescrever a história. Não é esse o fim, dizes-me, mais uma vez. E eu, envenenado até à tíbia, não tenho palavras que cheguem para a evidência de certas frases. Há pensamentos que são cicuta.



publicado por afonso ferreira às 17:43 | link do post

De Sandra a 18 de Fevereiro de 2010 às 20:43
Este pequeno texto deixou-me miserável...não se trata apenas de sentir as coisas na pele, já que normalmente vai bem além do físico. E a isto chamas de "ficção sem consequências"?


De afonso ferreira a 19 de Fevereiro de 2010 às 02:12
Posso mudar para "ficção com consequências"...


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